Aforismos > Nietzsche

Para quem a vida é a realidade suprema, sem ser uma evidência, não seria “se podemos ou não amar a vida” a pergunta que mais pode atormentá-lo? Perturbadora e deliciosa incerteza, mas que requer uma resposta. É fascinante e amargo ao mesmo tempo não saber se se ama ou não a vida. Preferiríamos não ter de dizer um sim ou um não, só para não dissipar uma inquietude prazerosa. Um sim significa a renúncia a conceber e sentir outra vida; um não implica medo do caráter ilusório de outros mundos. Nietzsche se enganou quando, absorvido na revelação da vida, descobriu que a vontade de potência era o problema central e a modalidade essencial do ser. O homem colocado diante da vida quer saber se pode conceder-lhe seu último assentimento. A vontade de potência não é o problema essencial do homem; este pode ser forte sem ter nada. A vontade de potência nasce muitíssimas vezes em homens que não amam a vida. Quem sabe a vontade da potência não é uma necessidade de fachada para a vida! A primeira interrogação ante a vida coincide com um apelo à nossa sinceridade. Que mais tarde busquemos ou não a potência é insignificante. O mundo busca a potência para jogar a última carta da vida.

O livro das ilusões (1936)


Há pensadores que não se pode ler em voz alta. Pascal é um deles. Suas verdades deveriam ser murmuradas; murmuradas deveriam ser todas as contraverdades da vida.
Comparado com seus Pensamentos, Assim falou Zaratustra é um sistema de ilusões. Nietzsche deveria ser gritado; é o que teria de se fazer com todos os arautos de ilusões.

O livro das ilusões (1936)


Não existe filosofia criadora. A filosofia não cria nada. Quero dizer que ela pode nos apresentar um novo mundo, mas não o faz nascer nem o fecunda. Tudo o que dizem os filósofos parece pertencer a um passado remoto; nenhuma obra de arte teria tido de existir porque toda obra de arte é um mundo no mundo e, consequentemente, não tem sua razão de ser em nosso mundo. Nenhum sistema filosófico me deu o sentimento de um mundo independente de tudo o que não é ele. É doloroso, mas é assim: podeis ler todos os filósofos que quereis, nunca sentireis que vos tornastes um outro homem. Naturalmente, dentre os filósofos excluo Nietzsche, que é muito mais que um filósofo.

O livro das ilusões (1936)


Este mundo é o mundo na música beethoveniana. O trágico no imanente é a nota que a separa do sublime transcendente de Bach, no qual os cumes divinos são sua altura natural. A dilaceração humana e o frenesi cósmico são para Beethoven um caminho em si mesmo, enquanto, para Bach, são pressentimentos de um sonho que frequentemente pode apalpar-se no entusiasmo celeste da alma. A presença do paraíso em Bach corresponde à sua ausência total em Beethoven. Isso significa que este último seja irreligioso? Beethoven é religioso pela tensão infinita que caracteriza seu trabalho de criador, exatamente como Nietzsche, cujo titanismo é de essência religiosa. Como em Beethoven não existe nada de “psicológico” porque tudo se enraíza no cósmico (tristeza cósmica, alegria cósmica), ele substitui muitos caracteres divinos sem substituir a divindade. O êxtase cósmico não o conduziu ao panteísmo porque no cósmico reencontrava os elementos divinos de seu trágico humano. Não conheço criador menos cristão que Beethoven. A admiração pela divindade é o maior ato de rebeldia desde Prometeu até aqui. A tristeza cosmogônica dessa música, tristeza que faz nascer um mundo sem despedaçar um coração.

O livro das ilusões (1936)


Bach, Shakespeare, Beethoven, Dostoievski e Nietzsche são o único argumento contra o monoteísmo.

O livro das ilusões (1936)


Santa Teresa D’Ávila – a mulher que reabilita todo um sexo condenado – ensinou-me sobre as coisas terrestres, mas especialmente sobre as celestes, mais do que todos os grandes filósofos. Me incomodaria que me qualificassem de discípulo de Schopenhauer ou de Nietzsche; mas poderia conter minha alegria se me chamassem o discípulo das santas?

O livro das ilusões (1936)


Nietzsche diz em algum lugar: “Buscavas o maior dos pesos e encontraste a ti mesmo”.
Quem entende e sente isto ama a natureza…

Lacrimi și sfinți (1937)


“Não sei distinguir música de lágrimas” (Nietzsche). Quem não entende isto num relâmpago nunca viveu um instante sequer na intimidade da música. Não conheço nada fora da música lacrimal. Pois esta, partindo da nostalgia do paraíso, dá nascimento aos signos dessa saudade, às lágrimas.

Lacrimi și sfinți (1937)


Pascal é um santo sem temperamento.
O grande mérito de Nietzsche é ter sabido defender-se a tempo da santidade. O que teria sido dele se tivesse dado livre curso às suas inclinações naturais? — Um Pascal, com todas as loucuras dos santos.

Lacrimi și sfinți (1937)


O único mérito dos filósofos é o de ter por vezes envergonhado-se de serem homens. Platão e
Nietzsche são exceções: eles se envergonharam sempre. O primeiro quis arrancar-nos do mundo, e o segundo, de nós mesmos. Inclusive os santos teriam algo a aprender com eles. Assim se salvou a honra da filosofia.

Lacrimi și sfinți (1937)


Quando lês a vida dos mártires, a dos santos, a de Nietzsche ou a de Dostoiévski,
sentes a necessidade pendurar-te pela carne das estrelas, de perambular sob a noite e destroçar teus membros por um sonho de obscuridade. Um tremor de alegria te prende em seguida e, num êxtase crepuscular, vestes os astros com um nimbo de suspiros.

Lacrimi și sfinți (1937)


A alma daqueles a quem Deus atormenta assemelha-se a uma fonte de vícios. Nascem nela a verdadeira decadência floral, o tédio perfumado, brotos infectados. Um florescimento crepuscular, como uma curva melancólica e tímida da esperança. Seria vão pretender que nos encontramos ainda em algum lugar quando já não podemos senão estar acima, acima de tudo e de nada. É fácil então entender um santo chantagista como Léon Bloy ou um cristão anticristão como Nietzsche. Ou então se lamenta por não ser Judas para trair um Deus e conhecer o remorso. Inveja-se todos os exilados da terra, mesmo que o universo seja apenas uma Santa Helena. Invocam-se todas as solidões dos oceanos, ainda que as lágrimas sejam um consolo mais direto e eficaz. Esse desejo de afogar-nos, essa paixão sem fundo quando nos elevamos acima do ser e do não-ser! Assim, é mais do que normal que as águas infinitas nos chamem e esperem cada vez que nos alçamos por cima de Deus.

Lacrimi și sfinți (1937)


O instinto da história distingue-se essencialmente do sentido da história. Desde Nietzsche e Spengler, sabemos que o interesse pela história é próprio da decadência, quando a inteligência suplanta o ímpeto criador, o aprofundamento na intensidade, tendendo a uma apreensão extensa, ao entendimento de si mesmo, à queda retrospectiva no mundo. O sentido da história torna temporais todas as formas e todos os valores, para que o categorial e o válido se enraízem no mundo como qualquer relatividade concreta.

Schimbarea la față a României (1936)


Na França, todo mundo tem talento, mas raramente encontra-se um gênio. Na Alemanha, ninguém tem talento, mas o gênio vem compensar a falta de talento de todos. Pense em todos os gênios alemães: cada um aporta um mundo, uma nova forma de existência. Com Hegel, com Wagner, com Nietzsche, nascem novos mundos. Cada um deles tinha o direito de afirmar que o mundo começava com ele. Estamos acostumados a só considerar no humano uma soma limitada de valores, um número reduzido de possibilidades, uma forma determinada de existência. Nesta perspectiva, é natural que tais criadores tenham, fatalmente, ultrapassado o humano.
A vida e a obra dos gênios alemães têm algo de inexplicável, de inacessível, de manifestamente inumano. Mesclam-se nelas elementos catastróficos, visões apocalípticas, jorros vertiginosos, surgidos de um incompreensível foro interior. Nietzsche dizia que Beethoven representava a irrupção da barbárie na cultura. Isto não é menos verdadeiro para o próprio Nietzsche. A barbárie germânica resulta da incapacidade dos alemães de manter um equilíbrio entre a vida e o espírito. O desequilíbrio se exprime menos por uma oscilação entre estes dois polos dos quais se torna alternadamente prisioneiro, quanto do fato de viver em um contraste que engendra estruturas antinômicas simultâneas.

Schimbarea la față a României (1936)


Suponhamos que a Romênia brinde o futuro com uma série de grandes homens, de exceções notáveis ​​e únicas. Deixaria então de ser uma pequena cultura? Basta, para uma resposta negativa, pensar na Dinamarca ou na Holanda. A Dinamarca tem um Kierkegaard, um gênio universal que exerceu grande influência no pensamento nas últimas décadas. Tanta coisa nos permanece estranha se não tivermos passado algum tempo lendo e ponderando seus textos. Podemos considerá-lo o terceiro dos grandes do século XIX, logo depois de Nietzsche e de Dostoiévski.

Schimbarea la față a României (1936)


O individualismo e o coletivismo contribuíram para o nascimento desse fenômeno [a aparição da massa como fenômeno social moderno]. O primeiro separou os indivíduos da comunidade, exagerando a consciência de sua singularidade e fomentando o isolamento para torná-los mais criativos. E isso para todos, não apenas para os mais talentosos. O individualismo nem sempre é nietzschiano. Historicamente, ele colocou o problema de cada indivíduo, nunca do rebanho. No século 19, seu ponto de partida não foi o heroísmo particular, mas os conflitos espirituais e econômicos de cada indivíduo como tal. Em um livro sobre Max Stirner, Basch localiza as fontes do individualismo na monadologia. Essa derivação teórica não deveria nos surpreender, uma vez que se aplica ao individualismo democrático. O pluralismo monádico encontra seu equivalente histórico na atomização social criada pela democracia, que coloca seu centro de gravidade em cada indivíduo e em nenhum.

Schimbarea la față a României (1936)


Um exemplo de universalismo é oferecido pela consciência europeia de Goethe ou pela de Nietzsche, que viveram em uma Europa feita de irredutíveis que encontravam-se, apesar das diferenças, em um ponto ideal do espírito. A cultura é universalista em sua essência. Mas ela ignora o internacionalismo. É por isso que um fenômeno cultural periférico como a imprensa pôde se tornar, tantas vezes, o meio específico e a expressão apropriada do internacionalismo. Apenas o econômico tem valor internacional. Daí o caráter absoluto que lhe confere o materialismo histórico.

Schimbarea la față a României (1936)


O individualismo das últimas décadas do século 19 não deve ser visto como nada além de uma reação apaixonada que opõe à automatização o fetichismo da evolução e suas implicações fatalistas. Seríamos nós meros instrumentos do devir, caprichos do fluxo das coisas, simples pretextos para a renovação incessante da natureza? Essa revolta individualista teve sua nota heróica, sendo uma das aparições periódicas da história nas épocas de fatalismo. Este tipo de individualismo não deve ser confundido com outro, atomizante e … cívico. Há um que exprime a revolta de algumas consciências isoladas, e há outro que é burguês. A moda permanente de Nietzsche e a passageira de Ibsen […] ressuscitou dois outros individualistas, que escreviam na época em que “a evolução” ainda possuía um sentido metafísico: Stirner e Kierkegaard, o primeiro de uma originalidade duvidosa e infecunda, o segundo, sugestivo e grave, situou a questão do individualismo em um plano puramente psicológico, enquanto subjetivismo.

Schimbarea la față a României (1936)


Pascal e — sobretudo — Nietzsche parecem repórteres da eternidade.

Amurgul gândurilor (1940)


Afastei-me da filosofia no momento em que se tornou impossível para mim descobrir em Kant alguma fraqueza humana, algum acento de verdadeira tristeza; em Kant e em todos os filósofos. Comparada à música, à mística e à poesia, a atividade filosófica provém de uma seiva diminuída e de uma profundidade suspeita que guardam prestígios somente para os tímidos e os tíbios. Aliás, a filosofia – inquietude pessoal, refúgio nas ideias anêmicas – é o recurso de todos os que se esquivam à exuberância corruptora da vida. Quase que todos os filósofos terminaram bem: é o argumento supremo contra a filosofia. O fim do próprio Sócrates não tem nada de trágico: é um mal-entendido, o fim de um pedagogo – e se Nietzsche soçobrou, foi como poeta e visionário: expiou seus êxtases, não seus raciocínios.

“Adeus à filosofia”, Breviário de decomposição (1949)


Muito melhor que na escola dos filósofos, é na dos poetas que se aprende a coragem da inteligência e a audácia de ser nós mesmos. Suas “afirmações” fazem empalidecer os apotegmas mais estranhamente impertinentes dos antigos sofistas. Ninguém as adota: já houve um só pensamento que fosse tão longe como Baudelaire ou que se atrevesse a transformar em sistema uma fulguração de Lear ou um monólogo de Hamlet? Talvez Nietzsche antes de seu fim, mas ai de mim!, insistia ainda em seus estribilhos de profeta… Buscaremos do lado dos santos? Certos frenesis de Teresa de Ávila ou de Ângela de Foligno… Mas neles encontramos com muita frequência Deus, esse sem-sentido consolador que, sustentando sua coragem, diminui sua qualidade. Passear sem convicções e solitário entre as verdades não é próprio de um homem, nem sequer de um santo; às vezes, entretanto, o é de um poeta…

“O parasita dos poetas”, Breviário de decomposição (1949)


Frente a pensadores desprovidos de patético, de caráter e de intensidade, e que se moldam sobre as formas de seu tempo, erguem-se outros nos quais se sente que, em qualquer momento que houvessem aparecido, teriam sido semelhantes a si mesmos, despreocupados de sua época, extraindo seus pensamentos de seu próprio fundo, da eternidade específica de suas taras. Só tomam de seu meio os contornos, algumas particularidades de estilo, alguns aspectos característicos de uma evolução dada. Apaixonados por sua fatalidade, evocam irrupções, fulgores trágicos e solitários, próximos do apocalipse e da psiquiatria. Um Kierkegaard, um Nietzsche, mesmo que houvessem surgido no período mais anódino, não teriam possuído uma inspiração menos fremente, nem menos incendiária. Pereceram em suas chamas; alguns séculos antes teriam perecido nas da fogueira: cara a cara com as verdades gerais, estavam destinados à heresia. Pouco importa que os devore seu próprio fogo ou o que lhes preparam: as verdades de temperamento devem ser pagas de uma maneira ou de outra.

“Verdades de temperamento”, Breviário de decomposição (1949)


Um espírito só nos cativa por suas incompatibilidades, pela tensão de seus movimentos, pelo divórcio de suas opiniões e suas tendências. Marco Aurélio, engajado em expedições longínquas, inclinava-se mais sobre a ideia da morte que sobre a do Império; Juliano, ao tornar-se imperador, sente saudades da vida contemplativa, inveja os sábios e perde suas noites escrevendo contra os cristãos; Lutero, com vitalidade de vândalo, submerge e definha na obsessão do pecado, sem encontrar um equilíbrio entre suas delicadezas e sua grosseria; Rousseau, que se equivoca a respeito de seus instintos, só vive para a ideia de sua sinceridade; Nietzsche, cuja obra inteira não passa de uma ode à força, arrasta uma existência raquítica, de pungente monotonia…

“Contra si mesmo”, Breviário de decomposição (1949)


A capacidade de resistir dos alemães não tem limites; e isso até na loucura: Nietzsche suportou a sua 11 anos, Hölderlin, 40.

Silogismos da amargura (1952)


Baudelaire introduziu a fisiologia na poesia; Nietzsche, na filosofia. Com eles, as perturbações dos órgãos se elevaram a canto e a conceito. Proscritos da saúde, cabia a eles assegurar uma carreira à doença.

Silogismos da amargura (1952)


Se Nietzsche, Proust, Baudelaire ou Rimbaud sobrevivem às flutuações da moda, devem isso à gratuidade de sua crueldade, à sua cirurgia demoníaca, à generosidade de seu fel. O que faz durar uma obra, o que a impede de envelhecer é sua ferocidade. Afirmação gratuita? Considere o prestígio do Evangelho, livro agressivo, livro venenoso entre todos.

Silogismos da amargura (1952)


O patético revela uma profundidade de mau gosto; como essa volúpia da sedição em que se comprazeram um Lutero, um Rousseau, um Beethoven, um Nietzsche. As grandes entonações – plebeísmo dos solitários…

Silogismos da amargura (1952)


Quando se é jovem, pratica-se a filosofia menos para buscar nela uma visão que um estimulante; perseguem-se as ideias, adivinha-se o delírio que as produziu, sonha-se em imitá-lo e exagerá-lo. A adolescência se compraz no malabarismo das alturas; em um pensador ama o saltimbanco; em Nietzsche amávamos Zaratustra, suas poses, suas palhaçadas místicas, verdadeira feira de cumes…
Sua idolatria da força é menos um sinal de esnobismo evolucionista que uma tensão interior projetada para fora, uma embriaguez que interpreta e aceita o devir. Disso tinha que resultar uma imagem falsa da vida e da história. Mas era necessário passar por aí, pela orgia filosófica, pelo culto da vitalidade. Os que se negaram a isso jamais conhecerão suas consequências, o reverso e as caretas desse culto; nunca compreenderão as raízes da decepção.
Como Nietzsche, acreditávamos na perenidade de nossos transes; graças à maturidade de nosso cinismo, fomos ainda mais longe que ele. A ideia do super-homem nos parece, hoje, uma mera elucubração; naquela época nos parecia tão exata como um dado experimental. Assim se eclipsou o ídolo de nossa juventude. Mas qual deles – se fossem vários – permanece ainda? É o perito em decadências, o psicólogo agressivo, não somente observador como os moralistas, que escruta como inimigo e se cria inimigos; mas seus inimigos ele os extrai de si mesmo, como os vícios que denuncia. Combate furiosamente os fracos?, pratica a introspecção; e quando ataca a decadência, descreve seu próprio estado. Todo seu ódio se dirige indiretamente contra si mesmo. Proclama suas fraquezas e as erige em ideal; se se detesta, o cristianismo ou o socialismo sofrem as consequências. Seu diagnóstico do niilismo é irrefutável: porque ele mesmo é niilista e o confessa. Panfletário apaixonado por seus adversários, não teria conseguido suportar-se se não tivesse combatido contra si mesmo, se não tivesse colocado suas misérias em outro lugar, nos outros: vingou-se neles do que ele era. Tendo praticado a psicologia como herói, propõe aos apaixonados pelo Inextricável uma diversidade de impasses.
Medimos sua fecundidade pelas possibilidades que nos oferece de renegá-lo continuamente sem esgotá-lo. Espírito nômade, é um especialista em variar seus desequilíbrios. Sustentou sempre o pró e o contra de tudo: é o procedimento dos que se dedicam à especulação por não haver podido escrever tragédias ou dispersar-se em múltiplos destinos. O certo é que Nietzsche, expondo suas histerias, nos desembaraçou do pudor das nossas; suas misérias nos foram salutares. Ele inaugurou a era dos “complexos”.

Silogismos da amargura (1952)


Hoje em dia, no tema da caduquice das civilizações, um analfabeto poderia rivalizar em estremecimentos com Gibbon, Nietzsche ou Spengler.

Silogismos da amargura (1952)


O espírito, assim como o corpo, paga o preço da “vida intensa”. Mestres na arte de pensar contra si, Nietzsche, Baudelaire e Dostoievski nos ensinaram a apostar em nossos perigos, a ampliar a esfera de nossos males, a ganhar existência pela divisão com nosso ser. E o que aos olhos dos grandes chineses era um símbolo de decadência, um exercício de imperfeição, constitui para nós a única forma de possuir-nos, de entrarmos em contato com nós mesmos.

“Pensar contra si”, A tentação de existir (1956)


Sabedoria e rebelião: dois venenos. Inaptos a assimilá-las ingenuamente, não encontramos em nenhuma das duas uma fórmula de salvação. Resta que na aventura luciferina adquirimos uma maestria que não possuiríamos nunca pela sabedoria. Para nós, a percepção mesma é sublevação, início de transe ou de apoplexia. Perda de energia, vontade de gastar nossas disponibilidades. Insurgir-se contra tudo comporta uma irreverência para consigo, para com nossas forças. De onde a tiraríamos para a contemplação, esse desgaste estático, essa concentração na imobilidade? Deixar as coisas tais e quais, observá-las sem querer moldá-las, perceber a sua essência, nada é mais hostil à conduta do nosso pensamento; nós aspiramos, pelo contrário, a petrificá-las, torturá-las, emprestar-lhes nossas raivas. Deve ser assim: idólatras do gesto, do jogo e do delírio, nós amamos os aventureiros [les risque-tout], tanto em poesia quanto em filosofia. o Tao Te King vai mais longe que Une saison en Enfer ou Ecce Homo. Mas Lao-tsé não nos propõe vertigem alguma, ao passo que Rimbaud e Nietzsche, acrobatas que se lançam ao extremo de si mesmos, nos convidam aos seus perigos. Só nos seduzem os espíritos que se destruíram por ter desejado dar um sentido à suas vidas.

“Pensar contra si”, A tentação de existir (1956)


Nada mais irritante do que essas obras que apresentam bem ordenadas as ideias densas de um espírito que se preocupou com tudo excepto com o sistema. De que serve dar uma aparência de coerência às de Nietzsche, a pretexto de que se movem em torno de um motivo central? Nietzsche é uma soma de atitudes, e é rebaixá-lo procurar nele uma vontade de ordem, uma preocupação de unidade. Cativo dos seus humores, registou-lhes as variações. A sua filosofia, meditação acerca dos seus caprichos, é erradamente considerada pelos eruditos como portadora de constantes, que se trataria de evidenciar, quando tudo nela as recusa.

“O comércio dos místicos”, A tentação de existir (1956)


Se tivesse dado precisões acerca da natureza do seu demónio, teria estragado uma boa parte da sua glória. A prudência da sua precaução criou a seu respeito uma curiosidade que inclui antigos e modernos; permitiu, além disso, aos historiadores da filosofia insistirem num caso que se mostra inteiramente estranho às suas preocupações. Trata-se de um caso que evoca outro: o de Pascal. Demónio, abismo, são para a filosofia duas doenças excitantes ou duas piruetas… Reconheçamos que o abismo em causa nos desorienta menos. Avistá-lo e reivindicá-lo, nada mais natural por parte de um espírito em luta aberta com a razão; mas seria natural que o inventor do conceito, o promotor do racionalismo, se autorizasse invocando «vozes interiores»?
Tal género de equívoco não deixa de ser fecundo para o pensador que visa a posteridade. Em nada nos preocupamos com o racionalismo subsequente: adivinhamo-lo e, sabendo onde ele quer chegar, abandonamo-lo ao seu sistema. Calculista e inspirado ao mesmo tempo, Sócrates soube, pelo seu lado, que feição imprimir às suas contradições para elas ainda hoje nos surpreenderem e desconcertarem. Seria o seu demónio um fenómeno puramente psicológico ou corresponderia, pelo contrário, a uma realidade profunda? Era de origem divina ou confundia-se somente com uma exigência moral? Era algo que Sócrates ouvia deveras ou não passaria de uma alucinação? Hegel considera-o um oráculo inteiramente subjectivo, sem nada de exterior; Nietzsche, um artifício de comediante.
Como podemos acreditar que se passe uma vida inteira a fazer de homem que ouve vozes? Sustentar semelhante papel teria sido, mesmo para um Sócrates, façanha difícil, senão impossível. No fundo, pouco importa que tenha sido dominado pelo seu demónio ou que se tenha apenas servido dele de acordo com as necessidades da sua missão. Se o forjou por completo, é porque teve, sem dúvida, necessidade disso, que mais não fosse para se tornar impenetrável aos outros. Solitário rodeado de gente, o seu primeiro dever era escapar aos que o rodeavam, entrincheirando-se atrás de um mistério real ou fingido. Por que meios distinguir entre um demónio verdadeiro e um demónio inventado? Entre um segredo e uma aparência de segredo? Como saber se Sócrates divagava ou usava de astúcia?
A verdade é que se o seu magistério nos deixa indiferentes, o debate que suscitou a seu próprio respeito ainda nos toca: não foi ele o primeiro pensador a erigir-se em caso? E não é com ele que começa o inextricável problema da sinceridade?

“Habilidade de Sócrates”, A Tentação de Existir (1956)


Sempre diferentes, não somos nós mesmos senão à medida que nos apartamos de nossa definição, sendo o homem, nas palavras de Nietzsche, das noch nicht festgestellte Tier, o animal cujo tipo não foi ainda determinado, fixado. Obnubilados pela metamorfose, pelo possível, pela careta iminente de nós mesmos, acumulamos irrealidade e nos dilatamos em falso, pois desde que se sabe e que se sente homem, aspira-se ao gigantismo, deseja-se parecer maior do que se é. O animal razoável é o único animal extraviado, o único que, em vez de persistir em sua condição primeira, se empenhou em forjar-se uma outra, a despeito de seus interesses e como que por impiedade por sua própria imagem.

“L’arbre de vie”, La chute dans le temps (1964)


Não é significativo que o primeiro dentre os modernos a ter denunciado com vigor os males do civilizado, por idolatria da natureza, foi o oposto de um sábio? Devemos o diagnóstico de nosso mal a um insensato, mais marcado, mais atingido do que nós, a um maníaco confesso, precursor e modelo de nossos delírios. Não menos significativo parece-nos o advento mais recente da psicanálise, terapêutica sádica, empenhada em irritar os nossos males antes que acalmá-los, e singularmente experta na arte de substituir nossos mal-estares ingênuos por outros rebuscados.

“Portrait du civilisé”, La chute dans le temps (1964). “Retrato do homem civilizado”, in Duas diatribes, (n.t.) Revista Literária em Tradução, ano IX, 2º vol., nº 17, Dezembro de 2018. Traduzido ao português por Rodrigo Inácio R. Sá Menezes. [PDF]


Nietzsche teve muita sorte em acabar como acabou. Na euforia!

Do inconveniente de ter nascido (1973)


As ideias surgem enquanto caminhamos, dizia Nietzsche. A caminhada dissipa o pensamento, professava Sankara.
As duas teses são igualmente fundamentadas, e portanto igualmente verdadeiras, e cada qual se pode certificar disso no espaço de uma hora, por vezes de um minuto…

Do inconveniente de ter nascido (1973)


Se, vá-se lá saber como, Rimbaud tivesse podido continuar (o que é o mesmo que imaginar os amanhãs do inaudito, um Nietzsche em plena produção após Ecce Homo) , ele teria acabado por recuar, por se tornar ajuizado, por comentar as suas explosões, explicando-as e explicando-se. Um sacrilégio, em qualquer dos casos, visto que o excesso de consciência é apenas uma forma de profanação.

Do inconveniente de ter nascido (1973)


Em Turim, no começo da sua crise, Nietzsche precipitava-se continuamente para o espelho, olhava-se nele, desviava-se e voltava a olhar-se. No comboio que o levava a Bâle, a única coisa que reclamava com insistência era de novo um espelho. Já não sabia quem era, procurava-se, e ele, tão propenso a salvaguardar a sua identidade, tão ávido de si, tinha apenas, para se reencontrar, o mais grosseiro, o mais lamentável dos recursos.

Do inconveniente de ter nascido (1973)


O que se pode repreender no Nietzsche do fim é o execesso ofegante da escrita, a ausência de tempos mortos.

Écartèlement (1979)


Orgulhoso de seu “instinto”, de seu “olfato”, Nietzsche sentiu a importância de um Dostoiévski, mas quanto erros cometeu em contrapartida, que admiração por uma quantidade de autores de segunda e terceira categoria. O mais desconcertante é que também ele acreditava que por detrás de Shakespeare estava Bacon, o menos poeta dos filósofos. Se fizéssemos uma lista de todos os seus desatinos, veríamos que se igualam em número e em gravidade aos de Voltaire, com um atenuante em seu favor: Nietzsche amiúde errou por vontade de ser ou parecer frívolo, ao passo que o outro não precisou fazer nenhum esforço.

Écartèlement (1979)


Entre os pensadores que, como Nietzsche ou São Paulo, tiveram o gosto e o talento da provocação, um lugar não desprezível cabe a Joseph de Maistre. Elevando o menor problema ao nível do paradoxo e à dignidade do escândalo, manejando o anátema com uma crueldade combinada com fervor, ele criou uma obra rica em excessos, um sistema que não cessa de nos seduzir e nos exasperar. A extensão e a eloquência de suas cóleras, a paixão que colocou a serviço de causas indefensáveis, sua obstinação em legitimar diversas injustiças, sua predileção pela fórmula homicida fazem dele esse espírito desmedido que, não se dignando a convencer o adversário, aniquila-o logo de saída pelo adjetivo. Suas convicções têm uma aparência de grande firmeza: aos apelos do ceticismo, soube responder com a arrogância de suas prevenções, com a veemência dogmática de seus desprezos.

“Joseph de Maistre: ensaio sobre o pensamento reacionário”, Exercícios de admiração: ensaios e perfis (1986)


Antes de redigir estas notas, planejara reler o que escreveram Mestre Eckhart e Nietzsche, em perspectivas diferentes, sobre o “homem nobre”. Não realizei o meu projeto, mas não esqueci um só instante que o havia concebido.

“Beckett”, Exercícios de admiração: ensaios e perfis (1986)


Um Kierkegaard, um Dostoievski, um Nietzsche sobrepujam suas próprias experiências, como também suas vertigens, porque valem mais do que aquilo que lhes “acontece”. Seu destino precede a sua vida. Não é o caso de Fitzgerald: sua existência é inferior ao que ela descobre. Ele só vê, no momento culminante de sua vida, um desastre que não o consola, apesar das revelações que extrai daí. O Crack-up é a “temporada no inferno” de um romancista.

“Fitzgerald”, Exercícios de admiração: ensaios e perfis (1986)


Brahms representaria «die Melancholie des Unvermögens», a melancolia do desamparo, a julgar por Nietzsche. Este julgamento, proferido à beira do colapso, manchará para sempre o seu brilho.

Aveux et anathèmes (1987)


Foram Schopenhauer e Nietzsche quem, no século passado, melhor falaram do amor e da música. Todavia, ambos só frequentaram bordéis e, em matéria de música, o primeiro gostava de Rossini e o segundo, de Bizet.

Aveux et anathèmes (1987)