Aforismos > História

A mística é uma irrupção do absoluto na história. Assim como a música, ela é o nimbo de toda cultura, sua justificação última. (Lacrimi şi Sfinţi)


No fundo, a história humana é um drama divino. Pois, não apenas Deus se imiscui nela
ella, como padece, paralelamente e com uma intensidade infinitamente incrementada, o
processo de criação e de devastação que define a vida. Uma desgraça compartilhada que,
tendo em vista sua posição, o consumirá talvez antes que a nós. Nossa solidariedade na maldição explica por que toda ironia dirigida contra Ele se volta contra nós e se reduz a uma auto-ironia. Quem, mais do que nós, mortais, sofreu por Ele não ser o que deveria ter sido? (Lacrimi şi Sfinţi)


Alguns milênios de hisória produziram uma séria crise do poder e da autoridade de Deus. Os povos se superaram para dar-lhe a conhecer, sem suspeitar o mal que lhe causavam. Se todos os países fossem parecidos com a Rússia e com a Espanha, teriam-lhe esgotado há tempos. O ateísmo russo e espanhol é inspirado pelo Altíssimo. Mediante o ateísmo, Ele se defende contra a fé que o consome. Deus acolhe de braços abertos os ateus, seus filhos… (Lacrimi şi Sfinţi)


A história não passa de um desfile de falsos Absolutos, uma sucessão de templos elevados a pretextos, um aviltamento do espírito ante o Improvável. (Breviário de Decomposição)


O princípio do mal reside na tensão da vontade, na inaptidão para o quietismo, na megalomania prometéica de uma raça que se arrebenta de tanto ideal, que explode sob suas convicções e que, por haver-se comprazido em depreciar a dúvida e a preguiça – vícios mais nobres do que todas suas virtudes -, embrenhou-se em uma via de perdição, na história, nesta mescla indecente de banalidade e apocalipse. Nela, as certezas  abundam: suprima-as e suprimirá sobretudo suas consequências: reconstituirá o paraíso. (Breviário de Decomposição)


A história dedica-se unicamente a mudar o rosto de uma quantidade de interrogações e de soluções. (Breviário de Decomposição)


A história das idéias é a história do rancor dos solitários. (Silogismos da Amargura)


“Nós, civilizações, sabemos agora que somos mortais”. Sendo nosso mal a história, o eclipse da história, devemos insistir nas palavras de Valéry, agravar seu alcance: sabemos agora que a civilização é mortal, que galopamos em direção a horizontes de apoplexia, a milagres do pior, à idade de ouro do pânico. (Silogismos da Amargura)


Se a História tivesse uma finalidade, como seria lamentável o destino daqueles que, como nós, nada fizeram na vida. Mas no meio do absurdo geral, nos erguemos triunfantes, nulidades ineficazes, canalhas orgulhosos de haver tido razão. (Silogismos da Amargura)


Feliz no amor, Adão teria nos poupado a História. (Silogismos da Amargura)


A trepidação da história é da alçada da psiquiatria, assim como de resto todos os motivos da ação: mover-se é trair a razão, expor-se à camisa-de-força.  (Silogismos da Amargura)


A hora do crime não soa para todos os povos ao mesmo tempo. Assim se explica a permanência a história. (Silogismos da Amargura)


Dizer: prefiro tal regime a tal outro, é flutuar no indefinido; seria mais exato afirmar: prefiro tal polícia a tal outra. Pois a história na realidade, se reduz a uma classificação de polícias; por que, de que trata o historiador, senão da concepção do gendarme que os homens criaram através dos tempos? (Silogismos da Amargura)


Admiro esses povos de astrônomos: caldeus, assírios, pré-colombianos, que, por
causa de seu gosto pelo céu, fracassaram na história. (Silogismos da Amargura)


Os tiranos, uma vez saciada a sua ferocidade, tornam-se inofensivos; tudo voltaria ao normal se os escravos, ciumentos, não pretendessem também saciar a sua. A aspiração do cordeiro a converter-se em lobo suscita a maioria dos acontecimentos. Quem não tem presas, sonha com elas; deseja devorar por sua vez e o consegue pela brutalidade do número.
A história, esse dinamismo das vítimas. (Silogismos da Amargura)


Para passar das cavernas aos salões, precisamos de um tempo considerável; necessitaremos outro tanto para percorrer o caminho inverso ou queimaremos as etapas? Pergunta inútil para os que não pressentem a pré-história… (Silogismos da Amargura)


Há mais honestidade e rigor nas ciências ocultas do que nas filosofias que atribuem um “sentido” à história. (Silogismos da Amargura)


Uma espiada no itinerário da civilização me dá uma presunção de Cassandra. (Silogismos da Amargura)


A história é indefensável. É preciso reagir em relação a ela com a inflexível abulia do cínico; ou então, pensar como todo mundo, caminhar com a turba dos rebeldes, dos assassinos e dos crentes. (Silogismos da Amargura)


O final da história? O fim do homem? É sério pensar nisso? São acontecimentos longínquos que a Ansiedade — ávida de desastres iminentes — deseja a todo custo precipitar. (Silogismos da Amargura)


O gesto de Lúcifer, como o gesto de Adão, um precedendo a História, o outro inaugurando-a, representam os momentos essenciais do combate para isolar a Deus e desqualificar o seu universo. Esse universo era o da felicidade irreflexiva no indivisível. Todos nós aspiramos a ele cada vez que estamos fartos de suportar o fardo da dualidade. (La chute dans le temps)


O demônio é o representante, o delegado do demiurgo, cujos assuntos administra aqui embaixo. Apesar do prestígio e do terror vinculados ao seu nome, não passa de um administrador, um anjo degradado a uma tarefa baixa, a história. (Le Mauvais Demiurge)