Aforismos > Morte (I)

Existem estados e obsessões com os quais não saberíamos viver. A salvação não consiste em confessá-los logo? Guardadas na consciência, a experiência terrível e a obsessão aterradora da morte conduzem à ruína. Falando da morte nós salvamos qualquer coisa de nós mesmos, e, apesar disso, no âmago de nosso ser, apagamos algo.

Nos cumes do desespero (1934)


Solitários na vida, nós perguntamo-nos se a solidão da agonia não é o próprio símbolo da existência humana. Lamentável fraqueza a de querer viver e morrer em sociedade: existe alguma consolação possível na última hora? É preferível morrer só e abandonado, sem afetação e mentiras. Eu provo apenas desgosto por aqueles que, na agonia, dominam-se e impõem-se atitudes para provocar uma impressão. As lágrimas somente são quentes na solidão. Todos aqueles que querem cercar-se de amigos na hora da morte, o fazem por medo e incapacidade de afrontar o seu momento supremo. Eles procuram, no momento essencial, esquecer sua própria morte. O quanto não se armam de heroísmo, trancando a porta, para se submeter a estas sensações temíveis com lucidez e terror sem limites?
Isolados, separados, tudo nos é inacessível. A mais profunda das mortes, a verdadeira morte, é a morte solitária, quando a própria luz torna-se um princípio de morte. São tais momentos o que nos separam da vida, do amor, dos sorrisos, dos amigos – e mesmo da morte. Perguntamo-nos então, se existe outra coisa além do nada do mundo e do nosso próprio nada.

Nos cumes do desespero (1934)


O paroxismo das sensações, o excesso da interioridade porta-nos a uma direção eminentemente perigosa, já que uma existência que toma consciência demais das suas raízes pode apenas negar-se a si mesma. A vida é limitada demais, fragmentada demais, para resistir às grandes tensões. Todos os místicos não tiveram, após suas epifanias, o sentimento de não poder mais viver? O que podem, então, esperar deste mundo aqueles que sentem além da normalidade, da vida, da solidão, do desespero e da morte?

Se continuamos vivos, é graças à escrita, que, por meio da objetivação, ameniza e essa tensão infinita. Criar significa salvar-se provisoriamente das garras da morte.

Nos cumes do desespero (1934)


Através do chicote, do fogo ou do veneno, façam então com que cada agonizante prove a experiência dos últimos momentos, a fim de que ele conheça, num atroz suplício, a grande purificação que é a visão da morte. Deixem-no, então, partir, correr aterrorizado até que ele caia de fraqueza. O resultado será, não o duvidem, mais brilhante do que aquele que obteríamos pelas vias habituais. Pudesse eu levar o mundo inteiro a agonia para purgar a vida em suas próprias raízes! Eu aí colocaria chamas tenazes, não para destruí-la, mas para comunicá-la uma seiva e um calor diferentes. O fogo que eu colocaria no mundo em nada traria sua ruína, mas sim uma transfiguração cósmica, essencial. Também a vida acostumar-se-ia a uma alta temperatura e cessaria de ser um ninho de mediocridade. Quem sabe a própria morte não cessaria, no seio deste sonho, de ser imanente à vida?
(Escrito neste dia de 8 de abril de 1933, meu vigésimo segundo aniversário. Experimento uma estranha sensação ao pensar que sou, à minha idade, um especialista do problema da morte.)

Nos cumes do desespero (1934)


Permanecer estupefato por sua própria catástrofe, incapaz de pensar ou de agir, esmagado pelas trevas glaciais, desorientado como se sob a dominação de alguma alucinação noturna ou abandonado como nos momentos de remorso, é atingir o limite negativo da vida, a temperatura extrema que desmascará a última das ilusões. Nesta sensação de esgotamento revelar-se-á o verdadeiro sentido da agonia: longe de ser um combate quimérico, ela dá a imagem da vida se debatendo nas garras da morte, sem quaisquer chances de vencê-la. A agonia como combate? Um combate contra quem e por que? Seria falso interpretar a agonia como um movimento provocado pela sua própria inutilidade, ou como um tormento que portasse sua finalidade em si mesmo. Fundamentalmente, agonizar significa submeter-se ao suplício, equilibrando-se na fronteira entre a vida e a morte. Esta sendo imanente a aquela, a vida torna-se, em sua quase totalidade, uma agonia. Quanto a mim, eu qualifico os instantes de agonia apenas como as fases mais dramáticas desta luta entre a vida e a morte – onde vivemos esta última de um modo consciente e doloroso. A verdadeira agonia une-nos ao Nada por meio da morte; a sensação de esgotamento consome-nos, então, imediatamente e a morte leva a vitória. Encontra-se em toda verdadeira agonia este triunfo da morte, mesmo que, uma vez passados os instantes de esgotamento, continue-se a viver.

Nos cumes do desespero (1934)


Os instantes de agonia indicam uma progressão da morte às custas da vida, um drama da consciência originário da ruptura do equilíbrio entre vida e morte. Eles sobrevêm apenas em plena sensação de esgotamento, quando a vida atingiu seu nível mais baixo. A frequência destes instantes é um índice de decomposição e de destruição. A morte é a única obsessão que não pode se tornar voluptuosa; mesmo quando desejada, este desejo se faz acompanhar de um arrependimento implícito. Eu quero morrer, mas arrependo-me de desejá-lo: voilà o que sentem todos aqueles que se abandonam ao Nada. O sentimento mais perverso de todos é o da morte. E dizer que existem pessoas cuja obsessão perversa da morte impede de dormir! Como eu amaria perder toda a consciência de mim mesmo e deste mundo.

Nos cumes do desespero (1934)


Sobre a morte

Certos problemas, uma vez aprofundados, isolam-nos na vida, esvaziam-nos de todo: então não temos mais nada a perder ou a ganhar. A aventura espiritual ou a projeção indefinida em direção às formas múltiplas da vida, a tentação de uma realidade inacessível não são mais do que simples manifestações de uma sensibilidade exuberante, privada da seriedade que caracteriza quem aborda questões vertiginosas. Não se trata aqui da gravidade superficial daqueles de quem se diz “sérios”, mas de uma tensão cuja loucura exacerbada eleva-nos, a todo o momento, ao plano da eternidade. Viver na história perde então toda a significação, pois o instante é experimentado tão intensamente que o tempo desaparece perante a eternidade. Alguns problemas puramente formais, não importa o quão difíceis eles sejam, não exigem de nenhuma forma uma seriedade infinita, pois, longe de surgir das profundezas do nosso ser, eles são unicamente os produtos da incerteza da inteligência. Somente o pensador orgânico é capaz deste tipo de seriedade, na medida em que para ele as verdades vêm de um suplício interior mais do que de uma especulação gratuita. Àquele que pensa pelo prazer de pensar opõe-se este que pensa sob o efeito de um desequilíbrio vital. Eu adoro o pensamento que preserva um sabor de sangue e de carne e prefiro mil vezes à abstração vazia uma reflexão originária de um transporte sensual ou de uma fusão nervosa. Os homens ainda não entenderam que o tempo das admirações superficiais passou, e que um grito de desespero é bem mais revelador do que a mais sutil das argúcias; que uma lágrima tem sempre fontes mais profundas do que um sorriso. Por que nos recusamos a aceitar o valor exclusivo das vivas verdades, estas que são originárias de nós mesmos? Somente compreendemos a morte experimentando a vida como uma agonia prolongada, num todo em que vida e morte misturam-se completamente… [+]

Nos cumes do desespero (1934)


Só na música e no amor existe a alegria de morrer, o espasmo voluptuoso de sentir que se morre por não poder mais suportar as vibrações internas. E nos regozija o pensamento de uma morte súbita que nos poupasse de sobreviver a esses momentos. A alegria de morrer, que não tem nenhuma relação com a ideia e a obsessiva consciência da morte, nasce nas grandes experiências de unicidade, quando se sente perfeitamente que esse estado não voltará mais.

O Livro das ilusões (1936)


O desgosto por não morrer nos momentos culminantes do estado musical ou erótico nos ensina o quanto temos que perder vivendo. No momento em que concebamos a reversibilidade do estado musical e erótico, quando a ideia de uma possibilidade de reviver penetre em nosso organismo e quando a unicidade nos pareça uma simples ilusão, não poderemos mais falar da alegria de morrer, mas voltaríamos ao sentimento da imanência da morte na vida, que faz desta apenas um caminho em direção à morte. Teríamos que cultivar os estados únicos, os estados que já não podemos conceber nem sentir como reversíveis, para mergulharmos nos prazeres da morte.

O Livro das ilusões (1936)


A música e o amor não podem vencer a morte porque, em sua essência, tendem a aproximar-se da morte à medida que ganham intensidade. Podem ser considerados como armas contra a morte só em suas fases menores. Uma música suave e um amor tranquilo constituem meios de luta contra ela. Não existe parentesco entre o amor e a morte, como tampouco o há entre a música e a morte; ao contrário, sua relação se estabelece através de um salto, que pode tratar-se apenas de uma impressão, mas que, interiormente, não é menos significativa que um salto. O salto erótico e o salto musical para a morte! O primeiro te arremessa pelo insuportável de sua plenitude; e o segundo, pela soma de suas vibrações, que quebram as resistências da individualidade. O fato de que haja alguns homens que se suicidem ante a impossibilidade de continuar suportando as loucuras do amor reabilita o gênero humano, assim como o reabilitam as loucuras que experimenta o homem na vivência musical. Quem não entende e nem sente a música é tão criminoso quanto aquele que não sente que, em tais momentos, poderia cometer um crime.
Todos esses estados só têm valor e expressam uma extraordinária profundidade se conduzem a sentir pesar por não morrer. Quem a cada momento se sentisse morrer por causa deles seria o que alcançaria o sentimento mais profundo pela vida. Embora para todos a morte comece simultaneamente com a vida, nem todos têm o sentimento de morrer a cada instante.
Dar sem cessar um salto musical e um salto erótico para a morte! Ou derivá-lo de tua solidão, que seja a solidão do ser, a solidão última. Como podem existir ainda outras solidões distintas destas e como podem existir ainda outras tristezas diferentes? O que seria de minhas alegrias sem minhas tristezas e de minhas lágrimas sem minhas tristezas e alegrias? E que seria de meu canto sem meus abismos e de minha missão sem meu desespero?

O Livro das ilusões (1936)


Tenho que me unir a todas as forças de minha imperfeição, de meu desespero e de minha morte. O que dizer do homem que não quer ter a suficiente sabedoria para superar o sofrimento? Mas os sofrimentos reais podem ser superados? Pode existir ainda um valor exterior que, por comparação, nos faça estimá-los? Objeta-se inutilmente que o sofrimento carece de raízes ontológicas e que não pode ser compreendido como pertencendo à estrutura da existência. Que valor pode ter essa objeção ante seres cuja existência se define pelo sofrimento? E, depois de tais tormentos, tu te tornas apenas santo! Não merecerá o sofrimento uma recompensa maior, a recompensa de morrer? Alegremo-nos contudo de que neste mundo a morte, ao menos, não é incerta.
O medo de chegar a ser santo ou o pesar de não morrer.

O Livro das ilusões (1936)


SOBRE O MAIOR DOS PESARES… sobre o pesar de não se ter realizado em mim a vida pura, de infectar-se de valores, de consciência, de espírito e de ideias; de ter sido atormentado pelos pesares, desesperos, obsessões e torturas; de ter sentido que se morre a cada passo da vida, a cada ritmo e a cada momento; de ter vivido torturado continuamente pelo medo do nada, pelo pensamento da aniquilação e pelo temor de existir.
O desgosto por não ser a vida pura, ou seja, que a vida não seja cântico, entusiasmo e vibração, de não ser uma aspiração pura até a ilusão e cálida até o consolo, de não ser uma beatitude, um êxtase, uma morte de luz.
Teria desejado que a vida circulasse em mim com uma plenitude insuportável, com suas anônimas evoluções anteriores à individuação, com seus exclusivos desejos de ser só ela mesma e ser paralela à morte. Uma vida assim teria palpitado de tal forma em mim, que sua ascensão teria sido uma irradiação, uma explosão de raios de luz e uma loucura de vibrações. Tudo estaria integrado nesse triunfo do ser e tudo teria sido música, uma orgia sonora, atraente e cativante até chegar a ser insuportável. Ter sido irresponsável pela vida que em mim corria e através de mim a vida teria falado!

O Livro das ilusões (1936)


Um chicote pode arrancar de uma morte mais vida do que muitas volúpias. Fustiga a carne até que ela comece a vibrar. Podes estar certo de que, depois de tal tratamento, terás menos pesares e menos desesperos. […] Tal fustigação se diferencia essencialmente das autoflagelações ascéticas. O asceta se flagela para escapar às tentações da vida; e nós, para escapar às tentações da morte. Uns, o fazem pela renúncia; outros, contra a renúncia. Não me parece nem heroico nem dramático lutar para derrotar a vida que há em ti, matar os instintos para edificar o espírito sobre essas ruínas. A autotortura como luta contra a vida é algo criminoso; daí o caráter desumano de todo ascetismo. Mas torturar-se, flagelar-se e ferir-se até sangrar para vencer uma doença e dominar uma dor significa dilacerar-se para viver. E todos os dilaceramentos orgânicos carecem de valor, a menos que por meio deles se consiga retardar a morte.

O Livro das ilusões (1936)


Para aqueles que, sem querer, ultrapassaram a vida, a filosofia significa muito pouco. Nenhum pensamento suprimiu uma dor, nem ideia alguma afugentou o medo da morte. Por isso, deixa de lado os pensamentos e começa por semear o terror em ti mesmo, com fúria e com um entusiasmo desesperado. Porque as ideias não salvaram nem fizeram desmoronar ninguém. Do centro de teu ser, dessa zona que escapa a teu controle porque é demasiado profunda, irrompe em feroz explosão, extrai de tua obscuridade tanta energia que só reste luz.

O Livro das ilusões (1936)


Tudo é tão inexplicável que me dói a inutilidade das ideias. A futilidade deste mundo, no qual a dor se afirma como uma realidade, transforma o negativo em lei. Quanto mais ilusória parece a existência do mundo, mais real se torna o sofrimento como compensação. Não há escapatória para o sofrimento enquanto vivamos; mas a morte não é uma solução, porque, resolvendo tudo, não resolve absolutamente nada. Não é possível encontrar para o mundo explicação nem justificação alguma. Que sua fugacidade, sua futilidade e sua inutilidade nos deixem tão insensíveis quanto o fato de que a vida nos tenha sido dada para morrer. Mas saber a cada instante de nossa vida que vamos morrer é o que nos faz mais mal. Quando não se tem consciência da morte, a vida, sem ser uma delícia, tampouco seria um fardo. E passar toda a vida infestado pelo medo da morte é um fardo. Então nos damos conta e nos horrorizamos de que, em uma existência tão reduzida no tempo e tão limitada no espaço possam caber medos tão profundos e tão perigosos. Por que ao homem se deu a vida para temer a morte e por que a vida é tão impura no homem? Por que vivemos para saber que morreremos?

O Livro das ilusões (1936)


Dentre os homens, só me impressionam aqueles cuja existência é uma série de encruzilhadas, somente os homens que têm um destino, cuja vida se dilata tanto que já não podem dominá-la de modo algum. O importante é ter destino, ser um “caso”. Que nossa presença seja uma advertência, um medo, uma inquietude, um êxtase ou uma alegria. […] Que nossa existência seja um problema tão insolúvel que nem sequer a morte possa resolvê-lo nunca, e que nossa ausência física aumente o tormento do ininteligível.

O Livro das ilusões (1936)


Só a realização absoluta no instante pode salvar-nos da tortura de ter um tempo nosso com os cadáveres do passado e com os inevitáveis cadáveres do futuro. Ao ser totais em cada momento, não temos de nos desembaraçar de nada, porque nada nos oprime de fora, da distância, mas permanecemos como uma existência, uma plenitude de existência, para a qual já nem a vida nem a morte pode ter sentido. Então nos surpreendemos quando dizem que vivemos, como nos surpreendemos quando dizem que morremos.

O Livro das ilusões (1936)


PARA OS MAIS SÓS. Me dirijo a vós, a todos os que conheceis até onde pode chegar a solidão do homem, até onde a tristeza de ser pode obscurecer a vida e o tremor do ser sacudir este mundo. E o faço mais para unir nossas solidões do que para saber o que eu também estou experimentando. Irmãos em momentos de desespero, de tristeza oculta e de lágrimas contidas, estamos todos unidos pelo mesmo desejo louco de fugir da vida, pelo mesmo pavor de viver, pela mesma timidez de nossa loucura. Perdemos a coragem de tanta solidão e nos esquecemos de viver por pensar demasiado na vida. Toda a nossa solidão não terá feito senão nos levar à morte e todas as desilusões, só à renúncia? Por que o nada deve ser a morte para nós? Meditamos demasiado sobre nós mesmos para que a vida não nos tenha castigado e amamos demasiado a morte para poder continuar falando de amor. Só há vida onde há um começo contínuo; e nós só fizemos terminar a vida a cada instante; e o que é nosso ser senão um eterno fim?
A nós, aos que estamos mais sós, aos que a vida deixa de lado, quem nos dará a esperança de esquecer-nos de morrer?

O Livro das ilusões (1936)


Que nossa loucura, intensa e profunda até o sublime, desencadeie um terror cósmico e uma ilimitada angústia cujo turbilhão atice as chamas de nossa vida, demasiado viva para não arder e demasiado dramática para não explodir. Que nada detenha nosso impulso de afirmação e que nossa vida deixe um rastro de morte para que nossa derradeira afirmação redima todos os sacrifícios.

O Livro das ilusões (1936)


Que toda a vida seja um impulso irracional que nos leve a um insuportável estado febril, com uma consciência alucinante de nossa missão. Não construamos nossa vida sobre certezas. E não a construamos porque não as temos, e não somos tão covardes para inventar-nos certezas estáveis e definitivas. Pois onde encontraríamos em nosso passado certezas, pontos seguros, equilíbrio ou apoio? Não começou nosso heroísmo quando nos demos conta de que a vida só pode conduzir à morte e, no entanto, não renunciamos a afirmar a vida? Não necessitamos de certezas porque sabemos que elas só podem ser encontradas no sofrimento, na tristeza e na morte; que são demasiado intensas e duradouras para não serem absolutas. Toda a nossa luta não pode ser senão uma luta contra a tentação de tais certezas e todo nosso heroísmo uma explosão contra nós mesmos, contra aqueles em quem se instalam o sofrimento, a tristeza e a morte, para que seu absoluto destrua nosso direito à loucura. Que nossa loucura consista em aniquilar as certezas quando nasçam em nós sem tê-las desejado. Não podemos continuar vivendo com o medo da morte, mas nosso impulso será tão fecundo que o vencerá. Nós queremos viver, ainda que saibamos que nada pode salvar a vida das garras da morte. E nosso ideal não pode ser senão passar por cima do que sabemos, vencer as tentações do conhecimento e todas as coisas seguras que nos fizeram desesperar. Despertemos com frenesi da ignorância que nos esconde essa verdade, que a vida é uma doença crônica.

O Livro das ilusões (1936)


O sacrifício é a suprema afirmação através de uma suprema renúncia. Sacrificar-se por algo significa descobrir um valor pelo qual se pode renunciar a tudo o que a vida oferece; mediante o sacrifício queremos salvar algo que só pode existir através da compensação da não existência. Minha redução a nada reclama para a existência outra forma de vida que se ergue sobre mim que me converti em nada. O sacrifício é uma tentativa de salvar a vida por meio da morte. A minha morte é a condição de sobrevivência ou de nascimento dos valores ou de um ser.

O Livro das ilusões (1936)


Quando a morte não pode ser evitada, é inútil e estéril revoltar-se contra ela. Quanto mais nos agitamos contra a morte, mais provamos que o nosso sentimento da morte é superficial. Pois rebelar-se contra a morte exclui a revelação do irreparável e do definitivo, da imanência inelutável da morte que sempre se revela a nós na intensa vivência desse fenômeno. A revolta contra a morte é fruto de uma inspiração momentânea; só o medo da morte é duradouro e profundo. Não podemos sustentar uma luta contra a morte; podemos só sufocar por algum tempo o medo da morte. Temos que aprender a morrer um pouco menos. Por que não nos servir de todas as experiências que nos fazem esquecer a morte ou daquelas em que esta nos aparece como algo evanescente? Por que não nos servir da fusão com a luz, experiência integral do mundo, como um afastamento da morte? A luz, ocasião e moldura de êxtase e de magia, nos impulsiona para longe do tempo, da fatalidade e da matéria. Nela nos esquecemos do princípio e sobretudo do fim; e, quando, às vezes, a invasão luminosa parece nos inundar até termos a sensação da morte, esta não se assemelha a um fim catastrófico, mas, sublimada e etérea, aproxima-se mais rapidamente de uma fusão imaterial da luz, do afastamento da individualidade na universalidade transcendente e sublime da luz. Quando não encontramos a luz fora, temos que voltar a acender as extintas fogueiras de nosso ser ou metamorfosear e converter em luz as imensas trevas de nosso abismo. Que todas as outras ocasiões de esquecer a morte tenham como protótipo a experiência e o êxtase da luz.

O Livro das ilusões (1936)


Cada vez mais estou convencido de que o heroísmo tem suas raízes no desespero. Fracassamos na vida por desespero; mas ele não nos leva a fracassar na morte. O sacrifício, só o sacrifício, salva a nossa morte e só ele resgata uma vida. A partir do momento em que a vida não é pura, mas infernal e torturante, não é o sacrifício uma sublime aniquilação? Poder morrer pelos outros; pelos sofrimentos de milhares de seres anônimos, por uma ideia fecunda e absurda; consumir a vida pelo que não nos concerne, destruir-se generosa e inutilmente, não é a única forma de renúncia de que somos capazes? Cada gesto só ganha valor na medida em que parte de uma grande renúncia. Só a morte dá profundidade aos atos da vida. E, no sacrifício, a vida se realiza graças à morte.
Se todos os homens para quem a vida é um bem perdido aprendessem a desperdiçar menos a sua morte, o mundo chegaria a ser uma sinfonia de imolações. Então, graças à morte, a vida adquiriria um caráter de solene gravidade e de grande renúncia e sacrifício, tenderia a uma pureza a que aspiram tantos impulsos desesperados. Todo sacrifício é um protesto contra a falta de pureza da vida. Por isso só podemos continuar sendo criadores pelo sacrifício.

O Livro das ilusões (1936)


Pergunta obsessiva e sem resposta: como é possível que o homem possa sobreviver aos estados extremos? Nunca me perdoarei por não ter tido esse atrevimento absurdo durante os êxtases supremos, o ter sobrevivido aos momentos de simultânea beatitude e aspiração à morte, o seguir vivendo depois que meu mar de lágrimas não pôde derramar-se no êxtase sinfônico da morte, do amor e da tristeza. Uma vez eu fui tudo: o que mais posso querer?
Por que não tenho a coragem da grande separação?
Ser tudo e ter tudo a cada instante.
Mas quem é que pode ser sempre Deus?

O Livro das ilusões (1936)


Considerar a morte em si mesma, separada da vida, é pôr a perder tanto a vida quanto a morte. O sentimento interior da morte só é fecundo se nos permite dar profundidade aos atos da vida. Essa relação faz com que esta perca sua pureza e encanto, mas ganhe infinitamente em profundidade. O êxtase puro da morte leva fatalmente a uma paralisia total do ser. Só quando formos capazes de arrancar faíscas da obsessão da morte, também poderemos então transfigurar a vida.

O Livro das ilusões (1936)


Gravemos em nossa morada interior as palavras de Santa Teresa: “Sofrer ou morrer”, não para nos lembrar do que queremos fazer, mas para saber o que somos. Ou temos um destino ou não temos. Pois não somos homens que morrem à sombra de uma árvore em uma tarde de verão! Que infinitos estremecimentos atravessem nosso ser e que a alma seja como um imenso forno; que nossos entusiasmos sejam abrasadores e vibrantes nossos êxtases; que tudo entre em ebulição e que explodamos como um vulcão e transbordemos como a lava. Que nosso símbolo seja o fogo e que o inexpressável nos dilacere durante os êxtases místicos. Que as brasas de tantos sofrimentos exalem um calor envolvente e, embriagados de tanta vida, temamos menos a renúncia. Não chegou o momento em que temos de entender, em um juízo definitivo, que a vida só pode consolar-nos da tristeza de ser sob outras formas distintas das suas? E não chegou a ocasião de mostrar que a coragem de viver quer dizer algo mais do que a repulsa a morrer? Não é preciso abraçar a morte para que a luta contra suas trevas faça resplandecer mais as luzes da vida? E não é preciso provar diariamente as resistências da vida por meio da árdua luta contra as forças da morte? Não temos que estar salvando a vida a cada momento? Pois só depois de tê-la salvo nosso sacrifício pode significar nossa primeira e última liberdade.

O Livro das ilusões (1936)


Que tudo quanto vivamos sejam preparativos e degraus que conduzam ao entusiasmo supremo. Muitas vezes teremos de morrer de entusiasmo, e durante nossos entusiasmos, para que um último entusiasmo negue a vida chegada a seu apogeu.
Fixemos o olhar no infinito e carreguemos de eternidade nossos pensamentos; que o corpo vibre como uma corda e que todos os órgãos, como tomadas de ocultas harmonias, nos liguem com os grandes mistérios. E morramos de tanto entusiasmo, de modo que nossa morte seja a do mundo.

O Livro das ilusões (1936)


O início da santidade: quando sentis que a vida não tem mais nada a perder na morte e a morte na vida.
Tragédia: a vida como limite da morte.
A santidade é como uma flor sem perfume, uma beleza sem brilho.
A única profundidade insípida: a santidade.
A santidade ou a falta de destino.
Um santo não pode morrer porque não vive. Um santo não termina nunca, assim como não começa nunca. Um gênio pode ser morto por sua obra. Que santo morreu do amor que há nele?
Cada instante como expressão de um destino, como luta entre a vida e a morte, forma a tragédia.
Nela a morte e a vida são absolutos. Mas o absoluto que o santo alcança sacrifica tanto a vida quanto a morte. Um absoluto inútil e uma profundidade insípida, ou por que tememos a santidade ao preço de nosso ser.

O Livro das ilusões (1936)


Morte, vida, espírito ou caminho da eternidade ao tempo. O que é o espírito face à vida, o que é a vida face à morte?
Relativamente ao espírito, a vida é originária: no vazio da vida apareceu o espírito; a consciência cresceu em detrimento do Eros. No Logos, uma forma de existência ganhou em esplendor e perdeu em eternidade. A vida é eterna para o espírito e efêmera diante da morte. Pois a morte precede e sobrevive à vida.
O correlato da morte: o nada; o da vida: o Eros; o do espírito: a consciência.
O progresso na eternidade ou o progresso para o nada. O existente, o concreto, o vivo são só no transitório. A eternidade indica uma falta de vida; o transitório consome um após a outro os transbordamentos do ser.
O nada é primordial (por isso, no fundo, tudo é nada); o Eros se faz; a consciência é derivada.
E para o homem desconcertado entre o nada, o Eros e a consciência, o aprofundar no
desenvolvimento do Eros ainda pode consolá-lo das oscilações entre a eternidade da morte e a fugacidade do espírito. O espírito pode visar à eternidade; como duração, é inferior ao irracional da vida. Muitas flores sorrirão para o sol quando já não se encontrar nem rastro de nossas ideias.

O Livro das ilusões (1936)


Todos os que na individuação não veem uma realidade autônoma, mas as ondulações de uma substância inacessível. Esses não amam a vida, porque a morte de um ser não é uma perda na existência.

O Livro das ilusões (1936)


Ninguém é sincero em seu amor pela vida, assim como ninguém é sincero em seu amor pela morte. O que é certo é que a vida desfruta de um consentimento mais profundo de nossa parte: ninguém pode odiar a vida; mas são muitos os que têm um ódio bestial à morte. Todos somos mais sinceros e mais categóricos com a morte porque, ante as dúvidas que nos suscita a vida, nos permitimos dirigir-lhe leves olhares e ter intuições insuspeitadas.

O Livro das ilusões (1936)


Repugnantes são os cadáveres, repugnante é a morte, e repugnante é o modo que têm os homens de morrer. De tantas maneiras de morrer, por que escolheu a vida a mais repulsiva? Por que acaba no frio? Imagino uma morte em plena juventude, em meio a ilusões e expectativas, uma morte que nos levasse a dissolver-nos no espaço, sob a pressão de uma febre infinita, flutuando diluídos no éter, como vapores do ser. A morte como dissolução imaterial no infinito, como um salto etéreo, a morte como sonho e como poesia da matéria! Mas não a morte como verificação da matéria, como ilustração das leis naturais, como uma fatalidade da natureza. Não me revolto contra a morte, mas contra o modo de morrer. A maneira como todos morremos, homens, animais, flores, constitui uma conspiração da matéria contra nós. Morremos tal e como nos prescreveu a natureza, traímos todas as nossas aspirações elevadas, todos os desejos de dissolver-nos em algum lugar para além de nós mesmos, de despedaçar nossas asas em um silêncio imaterial. Ao morrer caímos mais baixo que a terra. E por isso cada morte é motivo de vergonha. Na verdade, me dá vergonha morrer! Por que cada um de meus átomos não tenta sumir no espaço para que eu me dissolva, feliz por não tornar a reencontrar-me…?

O Livro das ilusões (1936)


Quero só a morte por plenitude, por excesso, só a morte que acrescente à vida o infinito que esta não tem e que a faz morrer.
A morte musical: o único meio de santificar a vida.

O Livro das ilusões (1936)


A impossibilidade de separar o infinito da morte, a morte da música e a música da melancolia…!

O Livro das ilusões (1936)


Há dois mil anos, a cruz se estendeu nos quatro pontos cardeais do mundo e em todas as direções da alma. Há dois mil anos a morte vem santificando a vida. O símbolo da cruz é a universalidade da morte, o predomínio da vertical, a coroação da vida pela morte. Aberta para os quatro pontos cardeais do cosmos, a cruz nos revela o infinito como berço da morte.
Mas a cruz se torceu e se cair vai custar muitas almas. Haverá muitas vidas asfixiadas, oprimidas, destroçadas. Mas as outras que, à sua sombra, estiveram suspirando pela luz encontrarão a libertação que a cruz só concede aos vencidos.
Em seu lugar introduziremos a ondulação como expressão do jogo e a graça das múltiplas formas da vida. Que a vida cante todas as suas quimeras, que lhes dê o esplendor e os reflexos próprios da eternidade. Que a vida perdurável deixe de ser ilusão e se torne fé, e que lembranças do paraíso coroem o encanto superficial de tantas ondulações vitais. Que o êxtase da vida seja a única fonte de conhecimento; e a morte, o ódio contra a vida.

O Livro das ilusões (1936)


RUPTURA COM A MORTE. O homem se torna outro cada vez que na vida o atormenta o pensamento da morte. Se durante anos ela foi teu único pensamento, durante anos assististe, consciente ou inconscientemente, a tua metamorfose. Sonhaste: a morte transitou pelo sonho. E teu sonho se transformou em outra coisa. Amaste: e, no amor, a morte o atravessou. E o amor se transformou em outra coisa. Em outra coisa se transformaram os desejos; em outra coisa, os sentimentos, com cada pensamento te transformavas em outro; te perdeste neles e com eles, e eles se perderam em ti. Abruptamente, sem nuances, o pensamento da morte te elevou acima dos abismos.

Ninguém venceu a obsessão da morte pela lucidez e pelo conhecimento. Não existia nenhum argumento contra ela. Ela não tem do seu lado a eternidade? Só a vida tem que defender-se sem trégua; a morte já nasceu vitoriosa. E como não vai ser vitoriosa se o nada é seu pai e o horror, sua mãe?

Só podemos vencer a morte desgastando-a. A penetrante obsessão que sentimos por ela nos desgasta e, por sua vez, se desgasta. Tão presente está a morte em nós que envelhece em nosso interior. Depois de ter-nos dito tudo, já não podemos utilizá-la. A simbiose prolongada com a morte nos ensina tudo; por ela sabemos tudo. Por essa razão, nenhum conhecimento pode nada contra ela.

O Livro das ilusões (1936)


Não sei se me acontece sempre ou só de vez em quando, mas me parece que não vou morrer nunca. Morrer, extinguir-me um dia, não tem nenhuma significação. Morrerei. Isso é tudo. E este estranho distanciamento da morte só vem de um sentimento retrospectivo da morte. Tenho medo da morte que esteve em mim. Não temo a que me espera, senão aquela que me preencheu durante anos, o halo sinistro da juventude. É medo do próprio passado e de seus estigmas impressos pela morte. Os homens esperam a morte e a colocam em relação com seu futuro. Por que temem só a intersecção do futuro com a morte, o aterrador beco sem saída do tempo?

O Livro das ilusões (1936)


Conhecer pela última vez a morte significa estar certo de que se vai morrer e de que não se quer morrer. O que de único existe no ser humano tampouco acredita que seja possível morrer, de modo que à visão lúcida e definitiva da morte se opõe a desesperada resistência da unicidade e da afetividade. Quanto mais sentimos a morte, mais violentamente reage contra ela o sentimento, desta maneira uma ilusão consciente abre para o homem uma enganosa porta por onde acredita escapar da certeza da morte. O sentimento comum da morte poderia ser definido como uma probabilidade certa.

O Livro das ilusões (1936)


Quando morrer como Deus manda, me lembrarei. Reviverei com uma intensidade diminuída e uma imagem insípida esse então horrível do passado. E pela última vez me alegrarei de que as lembranças não sejam fiéis ao mundo desperdiçado pelo tempo no tempo.

O Livro das ilusões (1936)


Não tem sentido meditar sobre a morte se não é para esgotá-la, para torná-la exterior. Tão profundamente mergulhaste nela que a solução de seu mistério se tornou para ti indiferente; sua infinitude, inexpressiva; sua eternidade, insípida. Faz da aversão à morte instrumento de seu enfraquecimento e do medo que experimentas dela um entusiasmo absurdo. Foge da sabedoria porque não existe outra sabedoria senão a da morte. E, quanto mais sábio se é, mais se olha a vida através do prisma da morte. Arremessa a morte para teus confins para que morra com eles e não contigo. Adora a vida pela infinitude de motivos que não a sustentam e sente nojo da morte até a imortalidade.

O Livro das ilusões (1936)


Se o homem tivesse nascido imortal, que forma teria tomado seu desejo pela morte? Se teria falado então do medo de não morrer. E a morte não teria sido menos horrorosa.

O Livro das ilusões (1936)


Quanto mais puseste vida nos pensamentos, mais há morte em ti.

O Livro das ilusões (1936)


Quem deu um dilacerante encanto, um sabor dramático e uma dolorosa atração ao gosto apaixonado pela morte, resultado da plenitude extática, desse celestial espasmo que esgota o vital, com maior intensidade que Santa Teresa? O excesso interior leva à aspiração mística na direção da morte. Só que Santa Teresa era demasiado cristã para não ver na morte a via para uma grande realização.

O Livro das ilusões (1936)


Quando tua vida começa com a sensação da morte, a progressão no tempo chega a parecer um caminho em direção ao nascimento, um curso à rebours. É como um processo de recuperação e restituição de etapas vitais. Morrer, viver, sofrer e nascer seriam os momentos dessa evolução invertida. Ou é outra vida que nasce nas ruínas da morte? Sentes a necessidade de amar, sofrer e ressuscitar, depois de ter conhecido a morte em ti. Só existe outra vida após ter passado pela morte. É por isso que as transfigurações são tão raras.

Lacrimi şi sfinți (1937)

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