“Alvo da intenção terrorista: uma experiência filosófica da aprovação” – Clément ROSSET

A lógica do pior ensina pois a necessidade da ligação entre pensamento trágico e pensamento aprobatório. Para ela, trágico e afirmação são termos sinônimos. Isto, por três grandes razões teóricas que respondem cada uma às três questões gerais postas mais acima.

Em primeiro lugar, a filosofia trágica considera a aprovação (e seu contrário, que é o suicídio) como o único ato cuja disponibilidade é deixada ao sujeito da ação, ao homem – ou seja, como a única forma de “ato”. Não que o homem seja “livre” para dizer sim ou não: é evidente que as motivações psicológicas que levam a afirmar ou a negar não são, tampouco quanto qualquer outra coisa do mundo, oriundas de um imaginário “livre-arbítrio”. Disponibilidade entretanto, no sentido de que se trata, com a afirmação, ou a não afirmação, de um ato suscetível de modificar o que existe – e o único. A imagem de Pascal toma aqui seu sentido mais profundo, porque mais trágico: o homem embarcou, no que é, tal como o passageiro de um avião de grande linha, sem acesso possível a nenhum dos comandos de direção (incapaz então, de fazer desviar, nem sua vida, nem mesmo, o que não admitiria provavelmente Pascal, o “sentido” de sua vida: uma aposta tal como aspira Pascal, ou seja, incidindo sobre a direção geral da viagem, aparece, ao pensador trágico, como fora de alcance assim como fora de sentido). Tudo o que ele pode “fazer” é se solidarizar ou não com sua viagem, aceitar estar nela (o que significa aprovação global), ou recusá-la (o que significa desaprovação global, ou seja, suicídio). E, para retomar, sem reservas desta vez, um pensamento de Pascal, não há solução intermediária: qualquer outro termo da alternativa é ilusório (mesmo se lhe acontece ser, de certo modo, “vivido”). É preciso escolher. Necessidade do sim ou do não, com a condição, evidentemente, que se tenha a princípio decidido escolher: realizar o único ato cuja disponibilidade cabe ao viajante. Pode-se também tão-somente não agir: solução habitual dos homens de vida “ativa”. Entre a renúncia a todo ato e relegar toda “atividade” à única questão da aprovação, a diferença pode parecer mínima. Pode-se assim considerar que a maior parte dos homens se acomoda em viver sem jamais agir, adiando para mais tarde a única forma de ato que reconhece o pensamento trágico. Segundo uma perspectiva trágica, apenas terão “agido” em vida, de um lado os suicidas, de outro os afirmadores incondicionais. Se a “moral” tivesse, aos olhos do pensamento trágico, um sentido qualquer, tal seria seu único critério de valor: a “dignidade” sendo aprovar globalmente ou negar globalmente, viver querendo-o ou morrer querendo-o. Suicídio e aprovação incondicional são, em todo caso, a seus olhos, as únicas formas de atividade às quais a expressão de frivolidade não está diretamente conectada.

ROSSET, Clément, Lógica do pior. Trad. de Fernando J. Fagundes Ribeiro e Ivana Bentes. Rio de Janeiro: Espaço & Tempo, 1989.

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