“Teologia” – CIORAN

Estou de bom humor: Deus é bom; estou melancólico: é mau; indiferente: é neutro. Meus estados lhe conferem atributos correspondentes: quando gosto do saber, é onisciente, e quando adoro a força, é todo-poderoso. Parece-me que as coisas existem? Ele existe; parecem-me ilusórias? Ele se evapora. Mil argumentos o apoiam, mil o destroem; se meus entusiasmos o animam, meus maus humores o sufocam. Não saberíamos formar imagem mais mutável: o tememos como a um monstro e o esmagamos como a um inseto; se o idolatramos, é o Ser; se o repudiamos, é o Nada. A oração, ainda que pudesse suplantar a gravitação, não conseguiria nunca assegurar-lhe uma duração universal: sempre permaneceria à mercê de nossas horas. Seu destino quis que só permanecesse imutável aos olhos dos ingênuos ou dos ignorantes. Um exame o revela: causa inútil, absoluto sem-sentido, modelo dos bobos, passatempo de solitários, ouropel ou fantasma conforme divirta nosso espírito ou frequente nossas febres.

Se sou generoso, enche-se de atributos; amargo, peso de tanta ausência. Vivi-o sob todas as suas formas: não resiste nem à curiosidade nem à investigação: seu mistério, seu infinito, se degrada; seu brilho se obscurece; seus prestígios diminuem. É uma roupa surrada que é preciso jogar fora: como continuar se vestindo com um deus em farrapos? Sua miséria, sua agonia, prolonga-se através dos séculos; mas não sobreviverá a nós, pois já envelhece: seus estertores precederão os nossos.

Esgotados seus atributos, ninguém terá mais energia para forjar-lhe outros novos; e a criatura que os assumiu, e depois os rejeitou, irá reunir-se no nada com sua mais alta invenção: seu criador.


CIORAN, “Teologia”, Breviário de decomposição. Trad. de José Thomaz Brum. Rio de Janeiro: Rocco, 2011.


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A ideia fixa do sistema não é menos suspeita quando se aplica ao estudo dos místicos. Trata-se de uma atitude ainda tolerável no caso de Mestre Eckhart, porque ele próprio teve o cuidado de disciplinar o seu pensamento: pois não era ele um pregador? Um sermão, por inspirado que seja, tem a ver com o curso, expõe uma tese e esforça-se por a fundamentar de modo convincente. Mas que dizer de um Angelus Silesius, cujos dísticos se contradizem a gosto, possuindo apenas um tema comum: Deus — e este é apresentado sob tantos rostos que se torna difícil identificar o verdadeiro? O Viajante Querubínico, sucessão de afirmações inconciliáveis, cheio de um grande e confuso esplendor, exprime apenas os estados de alma estritamente subjectivos do seu autor: querer mostrar a sua unidade, o seu sistema, é arruinar a sua força de sedução. Angelus Silesius preocupa-se menos com Deus do que com o seu próprio deus. O resultado é uma multiplicidade de insânias poéticas, de molde a desencorajar o erudito e a aterrar o teólogo. Mas nada disso se verifica. Um e outro esforçam-se por pôr em boa ordem as afirmações de Silesius, por simplificá-las, por extraírem delas uma ideia precisa. Maníacos do rigor, querem saber o que pensava o autor da eternidade e da morte. O que pensava ele? Pensava as coisas mais diversas. São experiências suas, pessoais e absolutas. Quanto ao seu Deus, nunca terminado, sempre imperfeito e mutante, o autor regista os seus momentos e traduz o seu devir num pensamento não menos imperfeito e mutante. Desconfiemos do definitivo, afastemo-nos dos que pretendem possuir uma visão exacta acerca do que quer que seja. O facto de em certo dístico Angelus Silesius assimilar a morte ao mal e num outro ao bem, só por falta de probidade e de humor nos surpreenderia. Como é em nós que devém a própria morte, consideremos as suas etapas, as suas metamorfoses, encerrá-la numa fórmula é detê-la, sabotá-la.

CIORAN, E.M., “O comércio dos místicos”, in A tentação de existir. Trad. de Miguel Serras Pereira e Ana Luisa Faria. Lisboa: Relógio D’Água, 1988, p. 119-131.
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