“Um Jesus, vários Cristos” – Marilia FIORILLO

No início havia apenas um judeu herético, Jesus de Nazaré.

HANS DIETER BETZ

O cristianismo atual — mórmon, luterano, anglicano, pentecostal, presbiteriano, adventista, católico etc. etc. — tem muito menos denominações do que teve no início. A unanimidade da Igreja primitiva é a mais mirabolante das ficções. Como fato, é comprovadamente falso. E mesmo como dogma é discutível, pois as três premissas magnas em que se pautam seus executores católicos — o cânone das escrituras, o credo e a estrutura institucional — só foram completadas no século IV.

Dois mil anos passados, até mesmo alguns teólogos se convenceram da inconsistência da teoria da unidade da Igreja, o que resultou numa nova fornada de interpretações sobre seu presumido fundador, isto é, o Jesus histórico. Considerou-se que era hora de rever o mito das Escrituras. Dois novos consensos pairavam no ar. O primeiro: Jesus, quem quer que tenha sido, nunca se arrogou o papel de Deus (e muito menos de Segunda Pessoa da Trindade ou algo do gênero). O segundo: fosse quem fosse, ele jamais pretendeu fundar uma Igreja à parte — e muitíssimo menos designar sucessores ou apóstolos.

Eram dois significativos passos à frente: Jesus não se achava Deus, nem nomeara herdeiros. E um claro golpe assestado na doutrina da “sucessão apostólica”, aquela segundo a qual legítimos são apenas o bispos que aprenderam pessoalmente com outros que aprenderam com outros que, por sua vez, aprenderam com… aqueles apóstolos nomeados pelo próprio Jesus. Dois passos à frente e um atrás, porém. Em vez de levar essas conclusões à sua previsível exasperação (se ele não queria fundar uma nova Igreja, o quanto as que se dizem dele são legítimas?), o debate rodopiou sobre si mesmo e estacou num detalhe. O de sempre. A pergunta que se faz desde o primeiro concílio, de 325, em Nicéia: qual a natureza de Jesus.

O primeiro concílio, sob o recém-convertido Constantino, havia mostrado muito mais rivalidade que fraternidade. A principal divisão foi entre os arianos e os trinitaristas (futuros católicos). O pretexto era a natureza de Jesus. Os arianos, freqüentadores mais assíduos da lógica, sustentavam que o Pai estava acima do Filho, mesmo que ambos partilhassem da mesma natureza, e adotaram o termo homoiousia (substâncias parecidas) para explicar as sutilezas dessa identidade dessemelhante. Os trinitaristas discordavam: o cristianismo tinha chegado para vingar triplamente, em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo — numa súbita promoção deste último, antes coadjuvante. Preferiram adotar o termo homoousia (mesma substância), que tornava as três figuras imediatamente consubstanciais, idênticas.

A mútua animosidade do congresso em Nicéia, escreve Gibbon, foi temperada por compungidas afetações de modéstia, virtude que é em geral louvada por aqueles que se sentem fracos. A maioria dos bispos do Egito e da Ásia, inclusive o douto Eusébio de Cesárea, autor da História Eclesiástica, estava com Ário (250-336) — além de sete presbíteros, 12 diáconos e, segundo os próprios arianos, 700 virgens. Os católicos de Atanásio, menos excitáveis com conceitos rebuscados e menos propensos a filosofar, interpretaram com maior singeleza o termo substância. Para eles, dava na mesma falar em substância ou essência: se um padeiro, um ferreiro e um marceneiro pertencem à mesma espécie humana (ou têm a mesma essência), segue-se que têm a mesma substância e as mesmas propriedades. Assim, o padeiro é igual ao ferreiro que é igual ao marceneiro. Idem para as expressões do divino, pois. A singeleza dos atanasianos conquistou Constantino, que não era muito versado em filosofia, e ganhou o concílio brindando os atanasianos com o título de católicos, isto é, universais. Eusébio de Nicomédia, vendo-se vencido, vacilou e encontrou um modo de concordar ambiguamente, com isso adiando por alguns meses o exílio. Ário, que insistia que a homoousia era uma usurpação de sentido, foi banido e tachado de porfiriano, isto é, de ignóbil neoplatônico. Três anos depois, porém, foi chamado de volta pelo imperador, tratado como um injustiçado, e suas teses foram aceitas num outro sínodo em Jerusalém. Foi então que Constantino exigiu, num ato de reparação, que ele fosse solenemente admitido para a comunhão na catedral de Constantinopla, mas, curiosamente, no mesmo dia Ário morreu. As estranhas circunstâncias que envolveram sua morte, como escreve Gibson, “poderiam despertar a suspeita de que os santos ortodoxos tinham contribuído de maneira mais eficaz que com suas preces para livrar a Igreja do mais temível de seus inimigos”.

Apesar de protagonizada por um mero ditongo (homoousia X homoiousia), a disputa não era nada fátua. A controvérsia trinitária reacendia uma velha discussão, aquela dos gnósticos. Como admitir que Jesus era humano, frágil e destrutível e, também, o Deus onipotente e inviolável? Não era só o cândido espírito cristão que se confundia; até a calejada dialética se veria em apuros para ajeitar os termos da controvérsia num silogismo passável.

Nicéia revisitada: esta poderia ser a manchete da discussão contemporânea sobre o Jesus histórico. Mais parcimônia, menos precipitação, nenhuma morte suspeita mas os mesmos dilemas. Um levantamento feito por Marcus Borg evidencia o estado atual desta vetusta querela. Borg consultou seus colegas, aparou diferenças e alinhavou concordâncias, e concluiu que pode-se falar, nesta virada do milênio, de seis retratos correntes (e plausíveis) de Jesus. Todos, só para efeito de memorização, poderiam começar, por exemplo, com a letra E:

1) Escatológico. Jesus poderia ter sido um profeta de Israel, com a missão de anunciar o fim dos tempos (escatologia) e a instauração de uma era messiânica — essa é a tese de E.P. Sanders. Por isso os apóstolos costumam ser contabilizados em doze — ecos das doze tribos de Israel, finalmente reunificadas. Por isso também a cólera de Jesus ao virar a mesa no Templo, um alerta sobre a necessidade de reerguer um terceiro santuário, impoluto. Ele, claro, não se achava Deus, mas futuro rei de Israel.

2) Excêntrico. O segundo retrato é o de alguém deslocado de sua cultura e de suas raízes, um estrangeiro na própria pátria, um judeu mais próximo de Atenas que de Jerusalém. Jesus teria sido um sábio-cínico helenístico, um filósofo que falava aramaico mas pensava em grego. É assim que o vê Burton Mack em The Lost Gospel e A Myth of Innocence. Mack é um especialista na fonte Q, o texto perdido que serviu de base para os trechos comuns a Lucas e Mateus que não constam em Marcos (em Q só há ditos sapienciais e parábolas, nenhuma narrativa). Para Mack, a Galiléia do século I estava profundamente imersa na tradição helenística, e muito propensa a ter seu Sócrates judeu. Esse retrato é o que melhor convém aos textos comprovadamente mais antigos, que são os ditos sapienciais de Jesus, aforismos que atacam as convenções judaicas.

3) Ecumênico. Sobretudo com as mulheres, na época consideradas a meio caminho do sapiens. Esse é o perfil traçado por Elisabeth Schüssler Fiorenza, uma teóloga feminista que publicou, em 1983, In Memory of Her. Jesus seria um feminista avant-la-lettre, um entusiasta do igualitarismo sexual. Isso explica por que, em tantas ocasiões, sobretudo as apócrifas, ele se apresenta como porta-voz de Sophia, a Sabedoria de Deus, uma figura feminina. Seu antipatriarcalismo estaria visível no fato de acolher discípulos sem distinção de sexo, melhor, dando até certa preeminência a mulheres, como Maria de Magdala, considerada em muitos textos (apócrifos) a discípula favorita.

4) Engajado. A quarta descrição, proposta por Richard Horsley, politiza a figura de Jesus: ele teria sido um reformista radical, com acentuadas preocupações sociais. A favor dessa caracterização estão sua ênfase nos humildes e desassistidos e a grande freqüência, nas parábolas, de temas como “dar sem esperar retorno”, ou o “mútuo perdão de dívidas”, ou o conselho de “emprestar sem olhar a quem”, para Horsley frases nada metafóricas, e sim palavras de ordem de um programa em prol dos explorados galileus.

5) Espoliado. O quinto desenho de Jesus é o de John Dominic Crossan. Judeu, sim, sábio influenciado pela doutrina resignada dos cínicos, também, mas antes de tudo um camponês pobre — com as aflições e as esperanças de todo camponês espoliado do Mediterrâneo. O livro de Crossan The Historical Jesus, de 1991, foi um imediato best-seller, com mais de 50 mil exemplares vendidos em um ano e meio. Crossan é adepto da abordagem interdisciplinar, e mescla sociologia, história, antropologia, teologia, crítica bíblica e a técnica de estratificação nos textos. O Jesus que emerge desse conclave interdisciplinar é bastante convincente, sobretudo pelo realismo das expectativas que teria alimentado. Não é um profeta do Apocalipse, nem da Israel renascida, nem da minoria galiléia, e muito menos da igualdade sexual. É um homem da prática, um gestor das crises do dia-a-dia. O conhecimento que ele transmite não é o da Gnose ou o do Logos encarnado de João, mas o da métis, a sabedoria pragmática, que resolve as encrencas cotidianas. Sua pregação funcionou graças a duas táticas: o convívio com seus seguidores — seus comensais nas refeições ritualísticas — e a magia. Foi um mágico porque curava à margem dos procedimentos habituais. A fronteira entre magia e milagre é uma zona nebulosa, como lembra Crossan. “Nós praticamos religião, os outros praticam mágica.” As refeições comunitárias seriam uma amostra simbólica do paraíso antecipado, sem distinção de raça, classe, educação, posição ou dinheiro.

6) Espiritual. O sexto semblante possível é o delineado pelo próprio Borg. Jesus teria sido uma “pessoa espiritual”, um místico, um freqüentador assíduo de Deus. Como um bom místico, claro, o Jesus de Borg jamais quis virar chefe de uma nova Igreja. Pretendia apenas limpar o corrompido judaísmo. Poderíamos acrescentar um sétimo retrato de Jesus, um oitavo e um nono, todos atuais:

7) Errante. Essa é a descrição do Evangelho de Tomé. Jesus teria sido um andarilho, um pregador itinerante, um radical sem teto e sem posses. Daí a famosa frase de que um profeta nunca é reconhecido em sua cidade. Ou a insistência em não cobrar pelo auxílio prestado, ou o conselho de não ficar muito tempo num mesmo lugar. Partidário da gnose, esse Jesus pede a seus seguidores que sejam solitários como ele.

8) Existencialista. Esse é o Jesus de A última tentação de Cristo, livro de Nikos Kazantzakis que virou filme. É uma figura trágica e cheia de dúvidas, medos e culpas, alguém dividido entre o senso de dever e o humano desejo pelos pequenos prazeres da vida. Em luta constante consigo próprio, como não é nem infalível nem desapaixonado, só pode ser o Jesus preferido dos artistas.

9) Encantador. Ilusionista, mago, prestidigitador. Assim o trata Morton Smith, em Jesus the Magician. Smith o compara a Apolonio de Tyana, cuja vida foi relatada por Flavius Philostratus na obra Vida do Apollonius, do início do século III. Nascido na Anatólia, Apolonio foi mandado pelos pais para estudar na cidade grega de Tarso (Ásia Menor), na mesma época em que Saulo, ou Paulo, saía de Tarso para estudar em Jerusalém. Saulo, um fariseu, tornou-se cristão. Apolonio se tornou pitagórico e passou a freqüentar os cultos de mistério. Mais tarde teria ido a Babilônia para aprender com os magos zoroastrianos, depois à Índia para conhecer os ensinamentos dos brâmanes. Voltou para pregar pela Síria, Anatólia e Grécia, curiosamente os mesmos locais onde Paulo havia vertido seu verbo, anos antes. Apareceu em Roma durante o reinado de Nero, depois viajou para a Espanha, Sicília, Grécia e Alexandria, cidade onde teria sido consultado, em 69, por ninguém menos que o imperador Vespasiano. Algumas peripécias depois, entre elas sua estada com os “sábios nus”, ascetas do alto Egito, Apolonio caiu em desgraça e foi julgado, em Roma, por conspirar para assassinar o imperador Domiciano. Mas, como mago que era, conseguiu evaporar-se em pleno recinto do tribunal na hora do veredicto. Reapareceu na Ásia Menor, onde, conta a lenda, continuou a pregar e perpetrar milagres até sua morte, e, dizem, subida imediata aos céus. Também se conta que ele ressuscitou e apareceu a um jovem incrédulo.


FIORILLO, Marilia, O Deus exilado: breve história de uma heresia. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2008.

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s