“Filosofia indumentária” (E.M. Cioran)

Com que ternura e com que inveja se voltam meus pensamentos para os monges do deserto e para os cínicos! Abjeção de dispor do menor objeto: esta mesa, esta cama, estas roupas… O traje interpõe-se entre nós e o nada. Olhe seu corpo em um espelho: compreenderá que é mortal; passe seus dedos sobre as costelas, como sobre um bandolim, e verá o quanto está perto do túmulo. É porque estamos vestidos que nos julgamos imortais: como se pode morrer quando se usa gravata? O cadáver que se endominga já não se reconhece e, imaginando a eternidade, apropria-se da ilusão. A carne cobre o esqueleto, a roupa cobre a carne: subterfúgios da natureza e do homem, trapaças instintivas e convencionais: um senhor não pode estar cheio de lama nem de poeira… Dignidade, honorabilidade, decência – tantas fugas ante o irremediável. E quando você coloca chapéu, quem diria que residiu em entranhas ou que os vermes se banquetearão com sua gordura?
… Por isso abandonarei esses trapos e, arrancando a máscara de meus dias, fugirei do tempo em que, de conluio com os outros, extenuo-me em trair-me. Antigamente, os solitários despojavam-se de tudo, para identificar-se com eles mesmos: no deserto ou na rua, gozando igualmente de seu desapego, alcançavam a suprema fortuna: igualavam-se aos mortos…

CIORAN, E.M., Breviário de Decomposição. Trad. de José Thomaz Brum. Rio de Janeiro: Rocco, 1989.

Arte: Diógenes, por Jules Bastien Lepage (1848-1884)

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