Cioran: conhecimento e sofrimento, titanismo e expiação (4 contextos)

Nada do que sabemos está livre de expiação. Pagamos caro, cedo ou tarde, por cada paradoxo, coragem de pensamento ou indiscrição do espírito. No castigo que sucede a qualquer progresso do conhecimento há um estranho feitiço. Arrancaste o véu que encobre a inconsciência da natureza? Pagarás com uma tristeza cuja origem não podes suspeitar. Te escapou um pensamento revolucionário e ameaçador? Há noites que não podem ser preenchidas senão com as evoluções do arrependimento. Fizeste muitas perguntas a Deus? Por que estranhas, então, o peso das respostas que não recebeste? Indiretamente, por suas consequências, o conhecimento é um ato religioso.

Amurgul gândurilor


O verdadeiro saber reduz-se às vigílias nas trevas: só o conjunto de nossas insônias nos distingue dos animais e de nossos semelhantes. Que ideia rica e estranha foi alguma vez fruto de um adormecido? Seu sono é bom? Seus sonhos, tranquilos? Engrossará a turba anônima. O dia é hostil aos pensamentos, o sol os obscurece; só florescem em plena noite… Conclusão do saber noturno: quem chega a uma conclusão tranquilizadora sobre o que quer que seja dá provas de imbecilidade ou de falsa caridade. Quem achou algum dia uma só verdade alegre que fosse válida? Quem salvou a honra do intelecto com propósitos diurnos? Feliz daquele que pode dizer: “Tenho o saber triste.”

Breviário de decomposição


O sofrimento abre-nos os olhos, ajuda-nos a ver coisas que de outra maneira não teríamos descoberto. Ele é, portanto, útil unicamente para o conhecimento, e, fora disso, serve apenas para envenenar a existência. O que, diga-se de passagem, favorece uma vez mais o conhecimento.

Do inconveniente de ter nascido


Quando Mâra, o deus da morte, busca por meio tanto de tentações quanto de ameaças arrancar do Buda o império do mundo, este, para confundi-lo e desviá-lo de suas pretensões, lhe diz entre outras coisas: “Terás sofrido pelo conhecimento?” Esta interrogação a que Mâra não podia responder deveria ser sempre utilizada quando se quisesse medir o valor exato de um espírito. É evidente que um Montaigne não sofreu pelo conhecimento: um sábio, e nada mais, um Pascal, pelo contrário, pagou pela menor afirmação ou negação que se permitiu; vem daí que tudo o que ele diz tem um peso que dificilmente se acharia nas palavras dos outros moralistas, todos mais ou menos instalados nas cômodas certezas do azedume, todos resignados com nossa corrupção radical, que não parecem de modo algum corrigir nem sequer abalar.

Prefácio à Antologia do retrato: de Saint-Simon a Tocqueville


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