A libertação necessária e (im)possível: a tragédia humana tem redenção, segundo Cioran?

“Ceder, em meio aos nossos males, à tentação de crer que não nos terão servido para nada, que sem eles estaríamos infinitamente mais avançados, é esquecer o duplo aspecto da doença: aniquilação e revelação; ela só nos arranca às nossas aparências para melhor nos abrir à nossa realidade última, e às vezes ao invisível.”

CIORAN, “Sobre a doença”, La chute dans le temps (1964)

“Quando eu falo de “libertação” [« délivrance »], não estou a fazer literatura; respondo a um apelo surgido do meu espírito e da minha fisiologia, de tudo o que tenho de bom e de mau, de tudo o que minha desolação tem de religioso. O único ‘mito’ ao qual eu adiro sem restrição é o do Paraíso perdido.”

CIORAN, Cahiers : 1957-1972

Entre suas muitas facetas e potencialidades, Cioran é um filósofo (ou um escritor proponente de uma filosofia) da libertação: um pensador existencial — e um metafísico diletante, toda vez que um mal-estar o exige — preocupado com o problema do mal, um problema incompreensível para a razão e, no limite, insolúvel, que se manifesta na forma de sofrimento (inocente e injustificado, o das crianças sobretudo), doença, morte, injustiças, explorações, desgraças e tragédias privadas, massacres, agressões e humilhações cotidianas. Cioran é um pensador atormentado pelo horror sagrado ou demoníaco que lhe inspira o drama humano universal, expressão antropológica (e antropomórfica) da “carreira triunfal do Mal” na História.

No Breviário de decomposição, ele escreve: “História universal: história do Mal. Suprimir os desastres do devir humano é o mesmo que conceber a natureza sem estações.” Em História e utopia, a questão é retomada com a mesma veemência:

“Estamos afogados no mal. Não é que todos os nossos atos sejam maus, mas quando cometemos alguns bons, sofremos por haver contrariado nossos movimentos espontâneos: a prática da virtude se reduz a um exercício de penitência, à aprendizagem da mortificação. Satã, anjo decaído transformado em demiurgo, encarregado da Criação, insurge-se contra Deus e revela-se, neste mundo, mais à vontade e até mais poderoso do que Ele; longe de ser um usurpador, é nosso mestre, soberano legítimo que sobrepujaria o Altíssimo se o universo estivesse reduzido ao homem. Tenhamos, pois, a coragem de reconhecer de quem dependemos.”

CIORAN, História e utopia (1960)

Com efeito, encontraremos reflexões e ruminações ociosas sobre a universalidade do Mal de ponta a ponta na sua “obra”, em quase todos os livros de Cioran, com especial menção a Le mauvais démiurge (1969). Neste importante livro (inédito em português), situado na fase tardia da sua produção francesa, intercalam-se textos de fabulação mitopoética gnóstica (a começar pelo título), de viés crítico (histórico-antropológico), correspondendo à pars destruens do livro, passando por reflexões sobre o suicídio em breves aforismos (“Encontros com o suicídio”), e — o que é mais notável – textos de teor reflexivo e especulativo veiculando toda uma meditação ascético-soteriológica, de viés oriental (notadamente budista), tendo o vazio (sunya, conforme distinto do “nada” niilista, segundo Cioran) como instrumento de salvação ou, melhor dizendo, libertação, délivrance em francês.

O mesmo não se pode dizer da “salvação” ou “libertação”, possível ou não, no conjunto desta “obra” que se desdobra (e “des-obra“) entre dois idiomas, duas “pátrias linguísticas”. Nada menos improvável, fora de alcance e de cogitação, ao que tudo leva a crer, do que a hipótese de uma “saída”, “solução”, de um “remédio”, uma “cura”, notadamente do mal de existir (ennui, amargura, sofrimento, insatisfação), do fardo de ser humano e autoconsciente, de saber-se — de todas as formas, por fora e por dentro — sem defesa, vulnerável, exposto à Doença e à Decomposição: personificações alegóricas, em chave vitalista-fisiológica, do Mal. De fato, grande parte dos textos e aforismos de Cioran não permitem concluir a favor da ideia de uma délivrance miminamente possível. Do mundo, tal como Cioran o descreve e apresenta (Darstellung), não se escapa, e — triunfo do paradoxo — nele tampouco se entra; nem dentro, nem fora, o homem não pertence a parte alguma, não se situa nem aqui nem lá; não há “mundo” do qual escapar, tampouco no qual refugiar-se; a “prisão” do homem não é nem o “mundo”, nem algo exterior ao (e além do) “mundo”, a “prisão” é próprio homem, aquilo que no homem diz, ou pode dizer, “eu”.

“Libertação”, délivrance em francês, é um termo-chave na filosofia existencial (e essencial) de Cioran, transpondo os limites da existência ordinária e habitual no sentido de especulações metafísicas que apontariam, penso, na direção de uma possível valência “soteriológica” (questionada ou negada por muitos, se não pela maioria, de seus exegetas) de um pensamento “niilista” como o seu. Em alemão, é Erlösung, como no título do livro de Philipp Mainländer, Die Philosophie der Erlösung (1876), em que o termo alemão é normalmente traduzido por “redenção”, em vez de “libertação” (como na tradução espanhola do livro, La filosofia de la redención). Um terceiro e último termo, tendencialmente evitado e menos recorrente nos textos de Cioran, é o (convencional, desgastado e descreditado) termo “salvação”: salut em francês, provavelmente, por significar uma noção teológica e moral (tradicionalmente cristã) com a qual Cioran não se identifica. “Há tantos anos que me descristianizo a olhos vistos!”, exclama ele em Silogismos da amargura.

Eis, de fato, uma das maiores dificuldades hermenêuticas em se tratando de Cioran, e de um pensamento perfeitamente paradoxal — se não aporético — como o seu: pensar, ou sequer imaginar, uma “salvação”, “redenção”, “libertação” não digo possível, mas, apesar de tudo (insiste Cioran), necessária, e, o que é mais difícil de compreender, cogitada fora de todo esquema teológico e/ou metafísico ocidental, fora de todo registro simbólico e imaginário judaico-cristãos tradicionais. Cioran (res)sente essa necessidade, essa urgência, surgida do seu espírito e da sua fisiologia, ao mesmo tempo em que se desilude dela, por não crer em Deus, milagres, na imortalidade da alma… Ele sempre deixou claro não possuir a fé, que é um incroyant, um cético “congênito”, além de não querer nenhuma cumplicidade com a religião do seu povo e do seu próprio pai, sacerdote ortodoxo. Contudo, alimenta-se do seu imaginário e simbolismo, do “repertório cultural” da tradição cristã ortodoxa, como um verme na fruta que insere nela os venenos de todas as heresias.

O mesmo princípio “vitalista”, normalmente aplicado à exegese da obra cioraniana ao nível dos aforismos entre si, notadamente a singularidade e a irrepetibilidade da experiência (Erlebnis em alemão; trăire, em romeno, do verbo a trăi, “experienciar, “vivenciar”, “viver”) da qual surge um determinado aforismo, este mesmo princípio aplica-se também à exegese global da obra, em seu conjunto, na relação entre os livros. Cada um deles — seja Nos cumes do desespero, O Livro das ilusões, o Breviário, Silogismos, História e utopia, Le mauvais démiurge — surge da experiência vivida que se desdobra e se reflete no escopo de uma determinada fase da vida. Em grande medida, os motivos e as necessidades que levam à sua fabricação, à reincidência sucessiva do mesmo “suicídio adiado”, essa escrita reiterativa das mesmas obsessões de sempre, isso não muda, permanecendo essencialmente o mesmo do primeiro ao último livro (a vida e a morte, Deus, o Mal, o Nada, a liberdade, a felicidade, o ennui, o êxtase); por outro lado, a experiência da existência presente, em cada fase da vida, comporta — como qualquer pessoa sabe — algo de novo, inédito, original, em relação a todas as experiências, a todos os momentos anteriores da vida, à medida que podemos acessá-los pela memória.

No Breviário de decomposição, seu debut, o “cartão de apresentação” do expatriado romeno ao mundo literário francês, Cioran se declara um “antifilósofo” e um “pensador de ocasião”, um “troglodita” “esfolado vivo” que só pensa e filosofa quando está sofrendo, à mercê dos seus padecimentos, no ritmo das oscilações e dos eclipses da sua saúde. Ou seja, sempre. Poder-se-ia-dizer, na contramão dos juízos e juízes escolástsicos, academicistas, dogmáticos e moralistas, que Cioran é tão mais filósofo quanto zomba da filosofia, faz pouco caso dela e a renega. Em sua visão heterodoxa, filosoficamente herética, tão próxima à de Chestov, das duas uma (ou/ou): ou a filosofia transcende a filosofia, sendo potencialmente mais (e menos) do que a filosofia mesma, ou então o que mais importa (to timiotaton, segundo Plotino citado por Chestov; “o essencial”, segundo Cioran) situa-se fora da filosofia, para além dos seus domínios racionais e lógicos. Inicialmente intitulado “Exercícios negativos”, o Breviário de decomposição é um tratado de negação sistemática de todas as ideias e de todos os “ideais”, de crenças, esperanças, valores, enfim, de tudo aquilo a que o homem possa apegar-se, simbólica e espiritualmente, para não soçobrar no desespero e no vazio, por ausência de ilusões. Vida, Liberdade, Alma, Salvação, Deus, Bem, Finalidade, Sentido, Ciência, Progresso, Sujeito: “ídolos perniciosos”, “preconceitos do espírito” que o autor do Breviário desmistifica e dissolve, um a um. Não sobra nada.

Comparado a Tentação de existir, História e utopia, La chute dans le temps e Le mauvais démiurge (estes dois últimos inéditos em português), todos os quais se destacam pela forma ensaística mais delongada, ou mesmo comparado a livros de aforismos breves e lapidares, como Silogismos da amargura, Do inconveniente de ter nascido e Aveux et anathèmes (o seu último livro, inédito em português), o Précis de décomposition é singular por ser um livro “gritado”, inflamado e “inflamável”, caudaloso e “escandaloso” à medida do tom vociferante, violento ou dissolutivo, à medida do seu lirismo barroco, de sua ferocidade; por ser — como Nos cumes do desespero — um livro bastante romântico (de um romantismo byroniano, fatalista, inconsolável, elegíaco). Neste momento, Cioran, um autor debutante em língua francesa, está mais preocupado em mostrar os seu dotes de écrivain, a sua alma poética e lírica, o seu talento literário, de esteta e estilista, do que em anunciar as suas preocupações ou obsessões (debilidades) “religiosas”. O Breviário é tudo menos o livro “sóbrio” e “seco” de um autor extenuado, consumido e esvaziado pelo Tempo, de um “vulcão esfriado” por esgotamento, como se descreverá Cioran tardiamente (cf. Cahiers), em contraposição às febres desse maldito yo que sempre se recusou, instintivamente, toda justa medida, mediania, razoabilidade, modéstia, equilíbrio, saúde. O pensamento da redenção desponta conforme se eclipsa a vitalidade, com toda a sua intensidade, esse inútil desperdício de energia…

Conforme avança em idade, praticando o métier de existir e de “excretar” livros, pode-se depreender de Cioran uma preocupação progressiva, cada vez menos irônica, menos derrisória, pela questão da délivrance. Ela já começa a despontar de maneira sensível em História e utopia (e mesmo em A tentação de existir), tendo o seu corolário em Le mauvais démiurge. Entre eles, La chute dans le temps. Neste sentido, a diferença é gritante entre o Précis e o Démiurge, no teor e no tom singular de cada um. Se o Breviário é definitivamente um livro a-soteriológico, a negação resoluta e apaixonada da ideia mesma de toda salvação, solução ou remédio possível para o problema existencial do homem, Le mauvais démiurge contrasta com ele por conter toda uma theoria ascética e soteriológica, em forma ensaística, que se não se desenvolve em chave estritamente budista (Cioran não pratica o budismo), aparenta situar-se a meio-caminho entre práticas ascéticas budistas (zen-budismo) e a heresia gnóstica. Vale a pena citar a seguinte anotação, feita em um de seus cadernos, em 16 de dezembro de 1967:

“A doença é uma realidade imensa, a propriedade essencial da vida — não só tudo o que vive, como ademais tudo o que é, está exposto a ela: a pedra mesma não lhe escapa. Só o vazio não está doente; mas para ter acesso a ele, é preciso está-lo. Pois nenhuma pessoa saberia esperar por ele. A saúde espera pela doença; só a doença pode conduzir à negação salutar de si mesma.”

CIORAN, Cahiers : 1957-1972

Um breve desvio no Caderno de Talamanca, um bloco de anotações preenchido por Cioran durante uma temporada de férias em Ibiza e que viria a ser publicado, postumamente, por uma amiga e editora alemã, Verena von der Heyden-Rynsch. Aí encontram-se notas mentais sobre o projeto de redação do que se tornaria o seu próximo livro, publicado em 1969, Le mauvais démiurge. Ele anota: “Quando voltar [a Paris], decidirei se vou escrever o ensaio sobre o hipócrita ou sobre a redenção, dois projetos em que me divido há alguns meses.” Prevalecerá a segunda opção: o ensaio sobre a rédemption, isto é, Le mauvais démiurge (aqui, “redenção” substitui délivrance, escolhido em seu lugar no Démiurge, possivelmente por ter a obra de Mainländer como referência). “Qual é o sentido da ideia de redenção? Tentar ler o livro de Philipp Mainländer: Die Philosophie der Erlösung (A filosofia da redenção).”

Não é fortuito que este caderninho esteja repleto de referências gnósticas, juntamente às referências à Filosofia da redenção de Mainländer. São anotações diversas onde constam nomes de heresiarcas, como Basilides, evangelhos apócrifos como o Evangelho de Tomé, e a heresia cátara. Tudo gira em torno da ideia (obsessão) da rédemption:

“Acredito, como o gnóstico Basílides, que a humanidade deva recobrar seus limites naturais por meio do retorno à ignorância universal, verdadeiro sinal de redenção.
É preciso que o homem ultrapasse o conhecimento, que renuncie à aventura do conhecimento.”

“Redenção: pelo conhecimento, pela ultrapassagem do conhecimento.”

CIORAN, Caderno de Talamanca

Cioran se debruçará sobre esta dupla ascese em Le mauvais démiurge: primeiro, a odisseia do conhecimento que é própria à lucidez (tão “luciferina”), levada em seu excesso de clarividência às últimas consequências (paradoxo, aporia); por fim, a superação ou “ultrapassagem” (dépassement) do conhecimento. Eis a tarefa completa da lucidez, se podemos falar assim: anular-se numa negação salutar de si mesma, de modo que no vazio deixado por ela nasce uma alegria neutra e insólita, como se não fosse de ninguém e de nenhum mundo, sem causa nem fundamento, “alegre e sem alegria”, como se diz do atman no Katha‑Upanishad, citado por Cioran. O resultado desta ascese negativa, pautada pela negação do princípio supremo mesmo que outras asceses (tradicionais) têm por objeto de afirmação e veneração, seria uma espécie de não-saber essencial (de cunho místico), um saber negativo, conhecimento da impossibilidade (e da insuficiência) última de todo conhecimento (positivamente considerado, enquanto produto da atividade racional e científica): uma “cegueira” demasiado clarividente, uma lucidez transfigurada (e “translúcida”) que tudo compreende sem nada saber. Aqui, podemos fazer uma ponte retrospectiva entre o Demiurgo e o texto intitulado “Êxtase”, de Nos cumes do desespero:

“Êxtase como exaltação na imanência, como iluminação neste mundo, como visão da loucura deste mundo — eis um substrato para uma metafísica — válida até mesmo para os momentos derradeiros, para os momentos finais. O verdadeiro êxtase é perigoso. Ele se assemelha à última fase de iniciação aos mistérios egípcios, em que, em vez do conhecimento explicito e definitivo, dizia-se: ‘Osíris é uma divindade negra’, ou seja, o absoluto permanece incognoscível em si.”

CIORAN, Nos cumes do desespero (1934)

Tratar-se-á, então, de vincular a lucidez cioraniana, e toda a filosofia intuitiva do mal que dela se desdobra, de forma fragmentária, a essa urgência de délivrance, possível ou impossível, viável ou inviável, que seria a sua consequência natural. Incapaz de salvar-se pela fé, de sequer reconhecer-se cristão, Cioran se voltou para outros horizontes e, plasmando intuitivamente elementos de cada um deles, formulou para si a sua própria versão da “salvação”, a meio-caminho entre o zen-budismo e a heresia gnóstica. Cioran, um pensador contemporâneo, filósofo ateu e niilista sem fé nem gnose, apareceria como um gnóstico sui generis, atípico, herético entre os heréticos, para quem a exemplo de Basílides o conhecimento (gnosis) não é um fim em si mesmo, mas apenas um meio para um fim superior ao conhecimento mesmo, e mais nobre, mais salutar que toda a ciência do mundo, inclusive de Deus: o “não-saber” essencial, a inocência, não aquela original, perdida e irrecuperável, mas uma segunda “inocência” (não literalmente, por aproximação e analogia), um estado transfigurado e desfigurado de existência, “alegre e sem alegria” a perfeita vacuidade subjetiva, um vazio pleno e timidamente irradiante, uma derrota triunfal do “eu”, conquistada graças aos excessos corrosivos da lucidez, em sua via negationis, e como que sobre as ruínas do “eu”. “Outrora tive um ‘eu’; agora sou apenas um objeto…”, escreve Cioran no Breviário, como se antecipasse, sem estar plenamente maduro para isso, o que será vivido e (d)escrito em Le mauvais démiurge.

“Só quem que é oprimido pela universalidade do tormento está maduro para a libertação. Sem a consciência desse tormento, buscar a libertação é impossibilidade ou vício. Não há libertação gratuita; é preciso que se liberte de algo, neste caso da onipresença do intolerável, que se experimenta tanto na hipótese do ser como na do não-ser, pois as coisas e as aparências das coisas fazem sofrer igualmente.”

CIORAN, Le mauvais démiurge (1969)

O último aforismo do livro presta-se muito bem a uma formulação lapidar da referida “universalidade do tormento”: “Estamos todos no fundo de um inferno no qual cada instante é um milagre“. Uma vez convencido, na prática, desta amarga e inconsolável evidência, sente-se maduro para ruminar e conspirar, então, a sua délivrance, para caminhar “em direção a graus cada vez mais elevados de insegurança”. Escreve Cioran em Le mauvais démiurge:

“Situar alguém é determinar o seu grau de despertar, o progresso que fez na percepção do ilusório e do falso, no outro e em si mesmo. […] O que importa não é produzir, mas compreender. E compreender significa discernir o grau de despertar que um ser atingiu, sua capacidade de perceber a soma de irrealidade que entra em cada fenômeno.”

CIORAN, Le mauvais démiurge (1969)

Eis, de fato, uma das maiores dificuldades hermenêuticas em torno de Cioran, de um pensamento perfeitamente paradoxal — se não aporético — como o seu: pensar, ou sequer imaginar, uma “salvação”, “redenção”, “libertação” não digo efetivamente possível, mas, apesar disso, insiste o autor, necessária, e fora de todo esquema teológico e/ou metafísico ocidental, fora de todo registro simbólico e imaginário judaico-cristãos tradicionais e/ou ortodoxos. Cioran sente esta necessidade, esta urgência, ao mesmo tempo em que se desilude dela, por não crer em Deus, nem em milagres, nem na imortalidade da alma. Ele deixa claro não possuir a fé, que é um incroyant, um cético “congênito”, além de não querer nenhuma cumplicidade com a religião do seu povo e do seu próprio pai, sacerdote ortodoxo. Ao mesmo tempo, alimenta-se do seu imaginário e simbolismo, do “repertório cultural” da tradição cristã ortodoxa, como um verme na fruta que insere nela os venenos de todas as heresias.

Se é verdade que, num certo nível discursivo e de leitura (superfície), Cioran distingue e opõe — corroborando assim um pré-conceito ocidental atávico — as figuras do sábio e do santo, ou do philosophos e do homo religiosus num âmbito menos ideal, no fundo ele os aproxima, reúne, e, mais do que isso, considera-os idealmente inseparáveis, numa unidade paradigmática do tipo humano superior. Se no Ocidente cristão, esta síntese parece improvável, em virtude da centralidade e primazia da fé em detrimento do saber e do querer-saber (pecado da curiosidade malsã), o mesmo conflito não parece ocorrer no extremo Oriente, hinduísta ou budista, observa o autor romeno de expressão francesa. Hinduísmo e budismo são “religiões” (de alcance mundial, tão e proselitistas quanto o cristianismo e o islamismo), como podem apresentar-se na forma de “sabedorias”, “filosofias de vida”, numa acepção bastante secular e prosaica. Pode-se enfatizar a dimensão metafisicamente especulativa e esotérica, como pode-se enfatizar a dimensão prática e pragmática, ateológica e simplesmente “eudaimonística”, ou, ainda (idealmente), fazer coincidir as duas numa espécie de santidade ou sabedoria secular, na imanência do mundo temporal, sem distinção entre “salvação da alma”, no sentido post-mortem, cristão-teológico, e o simples fato de sentir-se contente, satisfeito e jubiloso hic et nunc. No dia 25 (Natal) de 1965, Cioran escreve: “A felicidade conforme eu a entendo: andar no campo e olhar sem mais, esgotar-me na pura percepção.” (Cahiers)

Que Cioran seja um pessimista, na linha de Schopenhauer, ou (para evitar juízos excessivamente assertivos e categóricos), melhor dizendo, que haja (muito) pessimismo filosófico em sua “obra”, isso ninguém contestará. Como consequência “lógica” ou “vital” desse pessimismo (existencial, metafísico), surge o imperativo, a necessidade, a urgência de uma “saída” ou “solução”, de uma “cura” ou “remédio” para o problema do mal, para essa doença que se interioriza subjetivamente na consciência do mal. A “urgência do pior“, e não do melhor, a consciência de que não há salvação possível como hipótese de trabalho, talvez como a única solução possível na perspectiva da lucidez cioraniana. A obra de Cioran pode ser lida como uma Filosofia poética (e uma autobiografia filosófica) do Mal: Queda, Insônia, Pesadelo, Desespero, “Aniquilação e Revelação”, Êxtase e Transfiguração. Fica a questão de saber se ela é também, à sua maneira (poética, cantada, lírica) uma Filosofia da Redenção, o instrumento de superação, ad usum proprium, desse “tormento universal” que a sua obra não cansa de denunciar e expor, em sua materialidade mesma. Decomposição

A certeza de que não existe salvação é uma forma de salvação, é mesmo a salvação. A partir daí, tanto se pode organizar a própria vida como construir uma filosofia da história. O insolúvel como solução, como única saída…

CIORAN, Do inconveniente de ter nascido (1973)

SÁ MENEZES, R. I. R., “A libertação necessária e (im)possível: há uma redenção possível da tragédia humana, segundo Cioran?”, Portal E.M. Cioran Brasil, 12 de abril de 2021. Disponível em: https://portalcioranbr.wordpress.com/2021/04/12/libertacao-necessaria-impossivel-redencao-cioran/

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